O que a engenharia não me ensinou sobre ser mulher

Concentrated young female freelancer embracing newborn while sitting at table and working remotely on laptop at home

Minha atuação no mercado de trabalho era a realização de um sonho. Eu era engenheira civil residente de uma grande obra. No entanto, aquele cotidiano exigia o máximo de mim, física e emocionalmente; uma rotina movida à cobrança e à pressão que as grandes responsabilidades impõem. Para uma jovem recém-formada, aquilo parecia um combustível legítimo, mas comecei a ouvir uma voz sussurrando: “E depois?”. Geralmente, ela surgia quando eu iniciava o expediente subindo os 24 lances de escada da estrutura em crescimento, ou quando pisava em um andaime suspenso, estacionado a trinta metros de altura. Essa voz, preocupada com o futuro, pertencia a uma mulher que, como toda mente ansiosa, adiantava seus anseios. Minha grande interrogação era sobre o momento em que eu realizaria outro grande sonho: o de me tornar mãe. 

O canteiro de obras era um cenário tipicamente masculino. No auge dos meus 22 anos, eu comandava mais de trezentos funcionários em uma construção a todo vapor. Naquele microcosmo, assisti a duas das poucas colegas engravidarem. Ao retornarem da licença-maternidade, foram recebidas com uma carta de demissão. Essa fotografia desbotada é retrato do mercado de trabalho geral. 

Preocupada com os rumos da minha própria vida profissional, resolvi mudar de direção e seguir outra vocação: a docência. Como bacharel de uma área tecnológica, migrei para o ambiente acadêmico. Cursei o mestrado e ingressei no doutorado. Foi quando descobri que o machismo não fica do lado de fora da universidade; ele apenas muda de roupagem. Minha orientadora de mestrado, uma mulher experiente e prestes a se aposentar, me alertava com a autoridade de quem foi moldada pelo sistema: “Não tenha filhos antes de concluir o doutorado”. Mas devia ser exagero dela, certo?

Errado.

Desisti do primeiro doutorado pela metade. Eu atravessava o meu primeiro puerpério, mergulhada nos efeitos de uma terrível privação de sono, enquanto o sistema me cobrava o retorno imediato, visando a alta produtividade da pesquisa. No consultório, o psiquiatra me receitou Rivotril. Eu hesitei porque queria manter a amamentação, mas o esgotamento era palpável. Foi quando meu marido sugeriu que eu abrisse mão do curso. Logo eu, que nunca havia desistido de nada? Eu, que dava conta de tudo? A imagem da minha capitulação se materializou na sala do pediatra: vi meu marido, minha sogra e o médico discutindo sobre a minha situação. Quando ouvi do meu marido: “Ela quer dar conta de duas coisas que requerem dedicação exclusiva: o doutorado e a maternidade”, eu decidi abrir mão. Poderia recomeçar do zero depois.

E recomecei. Quando meu filho completou dois anos, eu estava matriculada em um novo doutorado, e grávida novamente. O cenário se desenhou ainda mais caótico. Eu trabalhava, pesquisava e cursava cinco disciplinas simultâneas. Ao final delas, enfrentei uma mudança de cidade em busca de uma rede de apoio, equilibrando o mundo nos braços: segurando meu filho mais velho em uma mão, seu diagnóstico de autismo na outra e a minha bebê na barriga. 

Se no mercado da construção civil eu enfrentei um machismo escancarado, cru e direto, no ambiente acadêmico o preconceito se provou intelectualizado e sutil. No entanto, os números não mentem: basta observar quem ocupa os cargos de gestão, quem lidera as bolsas de produtividade, quem assina as principais autorias dos artigos científicos. O topo da pirâmide permanece majoritariamente masculino. Foi na minha própria defesa do doutorado que presenciei a misoginia institucionalizada. Ali enxerguei que nós, mulheres, quando nos posicionamos com firmeza, somos taxadas de loucas, histéricas ou descompensadas. Já o homem que adota a mesma postura é celebrado como brilhante e assertivo. 

A figura de uma mulher em posição de destaque é constantemente sabatinada nos pormenores de sua trajetória. Questiona-se sua produtividade, invade-se sua intimidade, indaga-se com quem ficam seus filhos enquanto ela trabalha ou o porquê de escolher aquela roupa, perguntas que jamais seriam feitas a um homem. 

Quando entramos no prisma da maternidade, o machismo deixa de ser uma teoria abstrata e assume a forma de um terceiro personagem na relação entre mãe e filho: a carga mental. Essa engrenagem invisível começa na estatística alarmante do abandono paterno e se estende até os lares onde há um parceiro presente. Um filho raramente impede a produtividade de um homem; não altera seu horário de trabalho, suas viagens de negócios ou seu futebol do final de semana. Isso acontece porque, por trás dele, existe uma mulher gerenciando o invisível. É o fenômeno social que assistimos diariamente: homens que ocupam altos cargos, mas não sabem o tamanho do sapato dos filhos, o nome da professora da escola, a data da próxima vacina ou se há farda limpa para o dia seguinte.

As mulheres assumem os cuidados e, sozinhas, arcam com as consequências dessa exclusividade. Certa vez, meu marido justificou que não cortava as unhas do nosso bebê porque eu “levava mais jeito”. Respondi prontamente que não. Eu mesma já havia machucado o dedo do pequeno em tentativas anteriores. Expliquei a ele que a diferença entre nós dois não era a habilidade, mas sim o fato de que eu assumia o risco do erro, enquanto ele se dava ao luxo de ter outra pessoa para assumir por ele.

A maternidade nos ensina, por sobrevivência, a chutar o balde. Aprendemos a não engolir o que antes aceitávamos e a rebater o teto de vidro. Quando ouço críticas sobre a janta que ofereci às crianças ou o horário tardio do banho, devolvo: “Se você queria algo diferente, poderia ter feito”; “Você também estava aqui e não deu o banho”. Meu marido é um bom pai. Mas ele perpetua um padrão que todos nós fomos programados para aceitar. Essas respostas que disparo servem como espelhos para que ele reflita sobre os automatismos do privilégio.

A grande questão é que apontar essas falhas e desviar as flechas que vêm em nossa direção também é um trabalho árduo. Romper o silêncio cansa. E esse cansaço, infelizmente, se sobrepõe às muitas e pesadas camadas da nossa eterna (sobre)carga mental.

Autoria: Júlia Lira

Revisão: Bárbara Soares

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