Naquela festa de nove anos da minha filha, festa do pijama, a casa estava cheia: crianças agitadas brincavam, distraíam-se e interagiam sem preocupação. Aquele dia ficaria na história de nossa família, mas não tínhamos a mínima ideia disso. Tiramos uma foto em família, daquelas fotos tradicionais de aniversários que, na maioria das vezes, não damos valor, pois é só mais uma foto. Acontece que, nessa foto, meu bebê, meu Ian, estava na minha barriga com mais ou menos 13 semanas e estávamos todos muito felizes.
Esta foi a única foto com a família completa e a única foto que tenho com meu filho. Duas semanas depois ele se foi.
Neste ano, dois anos depois, é o aniversário de onze anos de Sara e, novamente, fazemos uma festa do pijama. Na estante, a nossa foto. A nossa única foto.
No coração, a gratidão pela minha filha linda, amorosa, inteligente, humana e de muita luz própria. E, não menos intenso, o sentimento de vazio. Duas maternidades muito distintas, mas duas maternidades.
Quando decidimos pela maternidade, entramos no terreno das incertezas, com muitos desafios pessoais e emocionais; tentamos nos preparar para eles. Minha filha, que é neurodivergente, ensinou-me a liberar o controle desde quando estava na minha barriga (é impressionante a sensação de falta de controle durante a gravidez!). Além do ensinamento sobre a falta de controle, a maternidade também nos ensina a amar o outro como ele é (e como nos ensina!). Eu bem que tentei colocar minha filha na “caixinha”; inconscientemente, talvez na mesma “caixinha” que tentaram me colocar e que eu, por muitas vezes, aceitei. Mas ela mostrou logo cedo (bem cedo) que esse não é o lugar dela. Qual é? Não sei (total falta de controle novamente!). O que sei é que vou cuidar, amparar, acolher e, principalmente, amar e aceitar. Aceitar o outro como ele é é tão libertador (para ambos) e ao mesmo tempo tão difícil… No entanto, é isso que faz sentido para mim.
Já a outra maternidade, a maternidade de “colo vazio”, não poder cuidar, amparar, acalentar, olhar nos olhos e cheirar o seu próprio filho, essa, eu nunca imaginei e também. Sinto que não a escolhi. Mas, pensando bem, como eu disse acima, escolher ser mãe é entrar no terreno da incerteza. Perder um filho é inimaginável, imensurável, inominável. Mas sou mãe. Mãe de dois filhos! E todas as mães que não estão com seus filhos ao seu lado, que tiveram que entregar seus filhos para outro plano, também são mães.
As duas maternidades me transformaram completamente e me transformaram em alguém melhor. Como tanto amor não poderia nos transformar, não é mesmo?
A festa do pijama me confrontou com essas duas maternidades: com o maior amor que uma pessoa poderia sentir nessa vida, e também com a maior dor. Ser mãe é conviver, diariamente, com esses sentimentos e tocar a profundidade do existir. Mães, sua existência não é em vão. Filhos, sua existência não é em vão. Cada um que passa por este mundo e muda alguém profundamente por meio do amor.
Gratidão minha filha por me escolher.
Gratidão meu filho por me escolher.
Amo vocês e, todos os dias, faço o meu melhor para honrar sua existência.
Autora: Luciana Moreira
Revisora: Micaela Queiroz Redondo





