Varrer é um verbo intransitivo e significa “limpar com a vassoura”. Eu sempre gostei de estudar a língua portuguesa, desde os primórdios da escola, quando eu fazia os exercícios de conjugação verbal para os meus colegas de sala, me sentindo o máximo porque ninguém entendia nada sobre aquilo além de mim. Pensar nisso me fez sentir cócegas na lombar, quase um constrangimento; varrer é um verbo intransitivo porque pesquisei na internet… a minha criança do ensino fundamental já não se lembrava disso.
Eu estava limpando o meu quarto com a vassoura, precisando que as inquilinas do quarto da frente limpassem o quarto delas também. Mencionei que moro em um triplex? O puro luxo de quem precisou voltar para perto dos pais depois de duas gestações não planejadas e um “preciso resolver a minha vida” — no exterior, claro.
As inquilinas, obras das gestações não planejadas, dividem o terceiro andar comigo. E somos muito felizes na maior parte do tempo, mas, em momentos em que estou limpando o quarto com a vassoura, o sentimento é outro. Principalmente se uma delas me responder qualquer pergunta com um “não”, em alto e bom som. “Não”, simples assim. Três letras e um som nasal.
O pedido era simples: limpe o seu quarto. E, na metade da minha frase de quase um segundo, “não”. Senti a minha criança do ensino fundamental segurar na minha mão.
Quando eu tinha uns oito anos, morávamos no interior, meu pai, minha mãe, meu irmão mais novo (hoje, tio-ju) e eu. E eu tinha uma fantasia de Branca de Neve que ostentava uma capa vermelha que a gente precisava amarrar no pescoço para vestir. Em um daqueles dias quentes que fazia por lá, estávamos brincando — tio-ju e eu — e me enosei na capa vermelha da princesa que a gente amava. Acontece que tio-ju queria a capa, mas a capa não queria desenosar. Lembro de tentar a todo custo desatar aquele nó, a certo ponto já na minha cintura, mas nada parecia funcionar. Tio-ju, como um típico filho mais novo, começou a chilicar. Minha mãe, como uma típica mãe de dois que tem um filho mais novo, não gostou nada daquela história e pediu pra eu tirar a capa. Acontece que ela estava enroscada, e eu, como uma típica irmã mais velha, mesmo querendo entregá-la para o meu irmão, fingi que estava tudo sob controle e que era eu quem ia escolher quando ela sairia dali. Eu disse: “não”.
Se você é uma millennial, como eu, sabe o impacto que essa palavra causava nas mães do nosso tempo. Foi o suficiente pra ela gritar qualquer coisa que já não me lembro e arrancar a capa da minha cintura — aparentemente com toda a força que ainda restava, depois de limpar toda a casa com a vassoura e passar horas em frente ao fogão.
Acontece que a capa estava enroscada. Eu e ela éramos uma só. E, assim como eu não estava ouvindo nada do que a minha mãe esbravejava, tão pouco ela parecia me escutar. Fiquei com uma cicatriz enorme na cintura porque aquele fio de capa-de-princesa, de repente, se tornou uma navalha e cortou a minha pele com a facilidade de um facão.
Foi tudo por um mal-dito “não”, que eu nem queria dizer, na verdade. Mas que, pela força do hábito, talvez, escapuliu como um tiro na culatra.
A inquilina disse “não”. Eu estava varrendo o chão. A minha criança do ensino fundamental segurou na minha mão. De todas as coisas que eu poderia pensar, e tantas outras que eu poderia esbravejar, primeiro, uma sensação: a conhecida cócega na lombar.
Respirei, querendo arremessar a vassoura que ainda estava em minhas mãos. Lembrei que somos como um “temperamentômetro” para os nossos filhos, regulando as emoções e o comportamento deles a partir de como estamos e nos colocamos nas situações. Eu precisava de um milésimo de segundo a mais pra me organizar.
Em vez de uma acusação, fiz uma pergunta, questionando o que eu poderia fazer naquele momento pra ela entender que era importante limpar o quarto. Não apontei tudo o que faço sendo mãe pra ela “retribuir” daquela forma. Não arremessei a vassoura e nem precisei quase rasgar uma inquilina ao meio. Uma pergunta e um tom de voz não nocivo. Ela me respondeu que eu poderia levá-la para passear e, talvez, comprar um sorvete.
Sem decidir quem estava à frente ou acima de quem, acenei em afirmação e vi o seu semblante mudar. Ela se virou em direção ao quarto e, chegando lá, começou a arrumação.
Moral da história: não deixem os seus filhos assistirem aos clássicos da Disney (juntos).
Autora: Bárbara Ferri
Revisora: Micaela Queiroz Redondo





