Mal estacionei em frente à rodoviária, Daniel entrou no carro e se acomodou. Sem me olhar, com aquele jeito aéreo que eu conhecia bem. Estava pálido e exausto, mais magro do que eu me lembrava. Tinha os cabelos crescidos, e trazia o suor da viagem de catorze horas em pleno verão. Meu filho. Um adulto, não mais um menino. Apertei o volante com força. Quase um desconhecido, depois de quatro anos morando com Jéssica em Santa Catarina. E eu ainda me esforçava para traduzir as múltiplas nuances de seus silêncios.
Era véspera de Natal e a cidade pulsava, indiferente a nós. Como se as luzes coloridas e a música nos dissessem que era proibido ser infeliz nesse período. Está bonito este ano, comentei, olhando para o reflexo dele no vidro. Daniel olhava para fora, como se procurasse algo que não estava ali.
Não perguntei sobre o divórcio. Se ele quisesse, falaria. Daniel sempre foi sensível, e qualquer pressão o fazia recuar. Decidia as coisas no seu tempo. Ao longo do trajeto, o silêncio incômodo pairava entre nós.
No dia de Natal, circulamos pelas casas de parentes e amigos. Todo mundo queria ver Daniel. Discretamente, me chamavam de lado, pedindo detalhes sobre o que aconteceu. Não sei, eu respondia, ele não me contou nada. E era verdade. Foi um livramento, alguém falou. Ninguém gostava muito dela, mesmo. Assenti, sem responder. Eu tinha medo de pensar assim. Queria apenas que ele fosse feliz. Com ou sem ela.
Duas semanas depois, Jéssica apareceu nas redes sociais. Sorrindo, encostada num rapaz de cabelos castanhos: namorando. Como se quatro anos pudessem ser descartados em uma única palavra. Senti o sangue subir. Bem que ela podia ter esperado antes de esfregar na nossa cara. Podia ter um mínimo de decência, de respeito, por Daniel. Precisava machucá-lo? Olhei o perfil do rapaz. Numa postagem de quase um ano antes, vi os filhotes recém-nascidos da gata resgatada por Daniel e Jéssica. “Gatinhos para adoção, de um casal de amigos”. Casal de amigos? A história não é recente; há quanto tempo ela traía Daniel? Bandida. Eu sempre soube que não era coisa boa. Soubera antes de se casarem quando senti o cheiro do leite de colônia que ela usava para limpar a pele, e me lembrei do pai de Daniel.
Eu era quase uma adolescente, infeliz e perdida, quando ele tentou me matar. Ainda não compreendia o peso de uma cultura que cria homens incapazes de lidar com a rejeição, que se acham no direito de eliminar a pessoa que lhes causou sofrimento. Ao longo dos anos, procurei a circunstância fortuita que o fez errar o tiro. Será que não sabia atirar? Ou não queria realmente me matar? Dizem que tive sorte. De qualquer maneira, construí uma vida. Às vezes me dá a impressão de que tudo aquilo aconteceu com outras pessoas. A cidade já não se lembra do escândalo. No passado, eu era chamada de mãe solteira vadia. Agora que tenho dinheiro, sou uma matriarca respeitada. Para mim, ambas as definições escancaram a hipocrisia das pessoas.
Meu filho é um homem bom. Eu sempre disse a ele que homem pode chorar, sim. Que chorar é humano. Chorar libera a pressão que carregamos por dentro. É melhor do que ficar segurando. Fatalmente, a pressão vai ter de sair, e nem sempre de forma inofensiva. Eu choro muito. Me permito sentir aquilo que dói, para depois tomar decisões. Mesmo com raiva, ele não faria mal para a menina. Nem eu. Só esperava que ela ficasse bem longe. Com o tempo, quem sabe, poderia dizer às pessoas que o casamento não deu certo e está tudo bem, são coisas que acontecem.
Meu filho é um homem tão bom que decidiu não formalizar o divórcio ainda. Jéssica estava fazendo um tratamento de saúde pelo plano dele, e levaria mais uns seis meses para terminar. O raciocínio era de que não mudaria nada para ele, enquanto para ela faria muita diferença.
Ainda não tenho certeza se a justiça divina devolve a cada um o que é de seu merecimento. Gosto de acreditar que sim.
Mas à noite, depois do jantar, Daniel se recolhia ao quarto e ficava sozinho com seus pesadelos. Ainda amaria Jéssica? Depois das primeiras semanas dilacerantes, um dia, ele se surpreenderia ao perceber que já não doía tanto. Que era tempo de recomeçar.
Enquanto isso, teria o conforto da casa de sua infância, o afeto da família, as flores no jardim e o luar de outubro na varanda. A parmegiana no fim de semana. A vitamina de frutas que virou tema de redação na escola, quando ele era criança. E meu ombro amigo, sempre que precisasse.
Por ora, seria o bastante.
Autora: Jenny Rugeroni
Revisão: Bárbara Soares





