Esquecido diário,
Há quanto tempo não piso em suas páginas com a ponta da minha lapiseira de grafite claro? Perdoa-me se as letras ficarem meio apagadas, como as luzes aqui de casa desde que voltamos do hospital. Peço desculpas de antemão se alguma lágrima fugitiva cair junto às gotas de leite que jorram livremente para fora de mim. Esse encontro inusitado pode vir a deixar uma mancha perolada, agridoce, no papel. Sua primeira tatuagem. Ou cicatriz.
Tenho me sentido triste na maior parte do tempo. Mas talvez não seja nada grave. Talvez seja assim mesmo. É assim mesmo. É o que as pessoas dizem. Vai passar. Às vezes sorrio por quase 1 segundo. Às vezes, sou rio.
A felicidade nos acha nas horinhas de descuido. Desde que fui mãe, levo esse fragmento do poema mineiro ao pé da letra e com a mesma seriedade com que meu filho encara suas brincadeiras. Eu diria que, depois da maternidade me encontrar, eu, que não sei bem se outrora estive perdida, tenho esbarrado comigo mesma tão somente nos momentos em que não cuido. É no descuido que eu deixo de ser coisa, que atende a demandas, para ser sujeito, que deseja e sente.
Deseja? Olho no fundo dos olhos dessa estranha que miro no espelho e pergunto: afinal, o que desejo? Ela, envelhecida pelo tempo que não passa, mas que atravessa a alma, rasgando a carne nem sempre fraca, responde: “Não sei. Não sei. Não sei”. Justo. Penso que não saber seja um sábio desejo. Como cansa ter de, da noite para o dia, saber tudo. Penso que não saber seja o primeiro passo para conhecer. Há que ter estranhamento. Estranha mente.
Não sei se já te contei, mas eu tive uma doula. Parteira também. Eu tive. Meu filho nasceu na banheira com água quente. Luz azul. Som ambiente. Perfume no ar, feito por mim. Nasceu perfeito. Perfeita mente. Mas ninguém é capaz de te preparar para tudo o que vem depois. Ou para o nada que vem. Nada vem. Não tem manual de instruções ou tutorial do YouTube. É só o bebê. Nada além. Agora é a prova dos nove. A hora da verdade. Nada mente.
E é nesse grande vazio materno que o bebê adentra, tateia no escuro em busca de um fio de certeza para se agarrar. No vão. Vai e vem. Em vão. Pois é do grande novelo de incertezas do qual o recém-nascido é feito que se borda o tecido da mãe.
Ama mente! É o correto a se fazer. Não há dúvidas. Nem para onde correr. Deitada, ainda esperando a placenta nascer, vejo aquele pequeno ser rastejar da minha barriga até o seio, que, naquela ocasião, ignorava tudo o que viria a acontecer. Desconhecida mente.
Depois desse dia, a gente nunca mais para de cuidar. E cada descuido é um milagre. Um oásis no deserto. Ou seria ao contrário? Uma bem-vinda ausência em meio ao excesso? Excesso de fraldas para trocar, leite para ofertar, posições de arrotar, música de ninar. Excesso de repetição. Repetir muitas vezes a mesma ação. No entanto, sentir-se cada vez mais inerte. Como isso é possível? Possível mente.
Será que um dia a gente aprende? Ou o aprendizado é aceitar que não dá para aprender o que não se pode ensinar?
Parei de escrever por um momento. Agora estou olhando para o meu filho recém-desperto em meu colo. Ele retribui o olhar.
Atento. Curioso. Ele olha. Vívida mente.
Vou ficar por aqui. Os olhinhos famintos pedem por cuidado. Brilham. Iluminam o quarto. Eu preciso seguir. Encantada mente.
Esquisito diário, até a próxima “horinha” de descuido!
Autora: Lo-Huama Santos – @espaco_travessia
Revisora: Samantha Viriato





