Eram 5:20h da manhã de uma quarta-feira do mês de outubro de 2021. A luz da manhã filtrava-se pelas cortinas em tons suaves de dourado. No ar, pairava uma atmosfera de tensão e expectativa. Não era um parto comum, não era uma ocasião alegre. Era um momento de dor e despedida.
Com o coração pesado, comecei a minha jornada dolorosa de dizer adeus ao que poderia ter sido. Não houve celebração, não houve preparação. Houve apenas eu, Marcos e Marina, enfrentando uma tempestade de emoções que nos ameaçava engolir. Em meio às lágrimas e aos suspiros entrecortados, continuamos. Não havia mais o que fazer senão seguir em frente, enfrentando a dor, permitindo-se sentir cada pontada de sofrimento que rasgava nossos corações.
Vivemos a maior experiência: fizemos um parto em alude em casa e tivemos a oportunidade de conhecer a nossa filha, mesmo tão pequenininha. Senti todas as dores do parto e as contrações junto do pai da minha filha, nós dois em posição de cócoras (um gesto ancestral de conexão com a terra, de entrega ao ciclo eterno da vida e da morte). Ele me abraçou, me segurou e, enquanto chorava comigo, Marina veio. Tudo muito rápido e intenso. Uma intensidade tão grande que, após tocar, olhar e sentir a minha filha, apaguei durante uma hora. E ele cuidou de tudo. Literalmente de tudo: de mim e da nossa filha. Nunca vou me esquecer desse dia e do seu amor por nós.
No outro dia, vi na janela do quarto vários ovinhos em um ninho de passarinhos. A partir dali, entendi que um novo amanhecer viria.
O mais dolorido disso tudo é a forma como as pessoas acabam lidando com o luto gestacional. Escutei frases como: “daqui a pouco você engravida novamente”; “não precisa ficar triste”; “ainda bem que foi no primeiro trimestre e o vínculo é menor”. Isso é cruel. Precisamos muito falar sobre o luto gestacional.
Costumo dizer que a experiência pode contribuir para a compreensão de alguns processos, mas não te livra da dor. Sentir é o principal sentido da vida. E a vida tem uma maneira peculiar de nos surpreender, de nos mostrar que, mesmo nos momentos mais sombrios, ainda há espaço para a luz. Assim, continuei abraçando a minha jornada, nutrindo sempre a esperança.
Quando Liz veio ao mundo, trouxe consigo um renascimento de sentimentos. Em seus olhos, vi o brilho de Marina refletido, a permissão de uma irmã para a outra. Vi o quanto Marina estava feliz com o nascimento da irmã. Ela permitiu que tudo transcorresse no mais lindo amor, selando uma conexão eterna entre duas almas ligadas pelo laço indissolúvel da irmandade e da maternidade. Eu entendi tudo. A Gestalt se fechou, mas a dor da perda é eterna.
E, assim, eu e Marcos seguramos Liz nos braços, nos sentindo gratos pela dádiva da vida e pelo milagre da esperança que renascia. Sempre me permito sentir, chorar e ressignificar. O amor é capaz de transcender até mesmo as mais profundas dores.
Olhar para trás e refletir sobre essa jornada, hoje, quando Liz completa seu primeiro ano, é um momento cheio de significado. Eu celebro a Marina e a Liz todos os dias. Essa é a nossa história eternizada.
A partir dessa vivência, escolhi celebrar e honrar o amor: celebro a minha ancestralidade, a quebra de ciclos geracionais, a admiração que tenho por cada mãe e os obstáculos que se tornaram grandes aprendizados. Vivenciando a maternidade, percebo o quanto ela é uma experiência profundamente multifacetada. Viver esse papel envolve lidar com complexas camadas biológicas, psicológicas e sociais.
Para muitas, a jornada é agravada pelas violentas mudanças hormonais do pós-parto, pela oscilação da autoimagem e por dores silenciosas como a ansiedade e a culpa na parentalidade. Além disso, quando olhamos para fora, nos deparamos com a escassez de apoio familiar, barreiras financeiras, discriminação de gênero e um acesso severamente limitado a cuidados de saúde de qualidade. A interseção dessas vulnerabilidades molda profundamente como cada mulher vive e percebe o seu maternar.
As redes sociais frequentemente retratam uma imagem idealizada, comercializada e irreal da maternidade, promovendo estilos de vida que não refletem essa realidade. E é triste ver o adoecimento das mães que, diversas vezes, entram no vespeiro das comparações diante de expectativas culturais e pressões invisíveis que criam padrões irreais. Não podemos ignorar as disparidades econômicas e emocionais que marcam o ponto de partida de cada mulher. Enquanto algumas têm acesso a recursos abundantes e redes de suporte, outras enfrentam a pobreza extrema, a doença ou o isolamento.
Daí surge a importância de um sistema equitativo. Como rede, comunidade e mães, é essencial trabalharmos a equidade maternal. Afinal, falar em equidade significa reconhecer essas desigualdades de partida: não se trata de dar o mesmo para todas as mães, mas sim dar o suporte necessário, profissional e proporcional à realidade de cada uma. Só assim garantiremos que a saúde mental e integrativa não seja apenas uma ferramenta para suportar o impacto avassalador que o maternar pode causar no corpo, no cérebro e na vida de uma mulher.
Por isso, desejo a todas as mães uma caminhada de singularidades, entendendo que cada uma tem a sua história abarcada de vivências, amores, dores e aceitação. Viver a sua própria história e abraçar o autoconhecimento é a oportunidade de compreender que você é única.
Mãe de barriga ou mãe de vida, mãe desde sempre ou escolhida… Os tipos mudam, mas o amor não. Para todas, das mais diversas pluralidades, deixo aqui o meu abraço de acolhimento bem apertado.
Com Amor e Carinho,
Autora: Tatiana Peçanha – @tatislp e @tatianapsi.es
Revisora: Samantha Viriato





