De filha à mãe. Da filha à mãe.

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Começo aqui o que sei que será um dos textos mais difíceis da minha vida: entrelaçar a minha maternidade com a maternidade da minha mãe falecida.

A palavra “falecida” tem um peso imensurável. Não carrega só saudade, mas a falta constante de uma voz que ecoa e que deveria ecoar dentro de mim. Me guia e, ao mesmo tempo, grita seu silêncio inevitável.

Fui mãe aos 37 anos, assim como minha mãe foi de mim. Nunca priorizei a maternidade até então. Demorei para me encontrar no mundo e para encontrar um parceiro com quem valesse a pena dividir a jornada.

Arthur chegou mudando tudo em mim. Em plena pandemia, trancafiado comigo em dias longos e noites mal dormidas. Eu me apeguei à fotografia e registrei intensamente o início de sua vida, a ponto de ele ver uma máquina fotográfica aos 9 meses e já sorrir.

Minha mãe me ajudou nos primeiros 39 dias. Dormia em casa, levava Arthur para mim na hora de alimentá-lo, deu o primeiro banho dele, me dava comida na boca enquanto eu amamentava, um ato bem poético diga-se de passagem. Me pedia para não desistir quando ele sugava leite com sangue e eu chorava de dor. Eu me achava incapaz. Ia me deitar ao lado do meu marido e chorar por não sentir prazer no que todos diziam ser o ato mais gratificante da maternidade. Para mim, era doação aflitiva. Mas persisti, como minha mãe me pedia. Arthur mamou até os 2 anos e 8 meses. Reclamou exatamente três dias que não tinha o tetê de boa-noite. Hoje, aos 5 anos, ele come o mundo antes de dormir. Diz que gosta de dormir com a barriga cheia. Por que será?

Quando voltei a trabalhar, Arthur ficou com a minha mãe. Ele tinha 1 ano e 4 meses. Aos dois anos, começou a ficar meio período na escolinha e meio período com ela. Juntos, eles andavam descalços pela grama, molhavam as plantas, alimentavam os passarinhos, tiravam fotos do pôr-do-sol. Se amavam genuinamente. Mesmo quando nos mudamos de cidade, ela ainda vinha ficar com ele.

Até que veio o câncer. Dois meses depois, nós a estaríamos enterrando. Arthur teve otite de repetição desde que demos a notícia da doença. Até hoje, quase dois anos após sua morte, ele fala que está com saudade e cantarola as músicas que ela cantava para ele na rede.

O meu luto foi intensificado por assistir, completamente impotente, ao luto do meu filho.

Quando eu era somente filha, ela me tratava como sua caçulinha. Perdi o posto para Arthur depois de algum tempo. Tive que ter conversas sérias com ela, conversas desconfortáveis, para alinhar nossa relação. Ela, sempre calma, escutava e agradecia.

Hoje tenho saudade até dessas conversas. Elas faziam parte de uma relação que não ficava na superfície. A gente mergulhava, tocava no incômodo, se aprofundava. E aprofundar-se é prender a respiração, ver o que tem nas sombras e não as evitar a fim de fingir que “está tudo bem”.

Quando uma mãe passa o bastão de seu posto para sua filha, tudo muda, e quase nunca falamos sobre isso. E como eu adoraria conversar sobre isso com ela. Seria uma experiência ímpar, tenho certeza.

Ela amava me ver exercendo minha maternidade. Admirava como eu priorizava Arthur. Lembro de um dia estar dando banho nele, que estava sentado na banheira, e começar a fazer massagem em suas costas pequeninas e gorduchas, falando dos pontos de aliviar tensões. Os olhos dela brilharam. Acho que ela nunca tinha visto aquilo. Ela podia não concordar com muitas atitudes minhas, mas a minha maternidade ela aplaudia.

Priorizo Arthur porque, durante muito tempo da minha vida, não me senti priorizada. Eu sei, ela fez o seu melhor. E acontecerá o mesmo com Arthur. É um ciclo natural da vida. Corrigimos os erros dos nossos pais e cometemos novos erros.

Minha maternidade, imperfeita e intensa, vem do que ela me permitiu sentir e ser. Ela me aceitou em todas as minhas versões: doce na infância, problemática na adolescência, uma bomba-relógio quando jovem adulta e, aos 30, encontrando o amor. Ela me fez enxergar que a maternidade não é posse, não é extensão. Um dia será um soltar de mãos.

Minha mãe foi tão maravilhosa, humana e imperfeita que, mesmo depois de morta, veio me consolar. Eu estava na fase da raiva do luto quando, em um sonho, a encontrei. Ela me esperava em um ponto de ônibus, com o vestido vermelho que ela usava na minha infância. Tinha a aparência de quarenta anos. Chorei de felicidade. Nos abraçamos. Senti o calor vívido do seu colo como se fosse real.

Fomos caminhando de mãos dadas. Eu contava os problemas. Percebi que fazia com ela exatamente o que Arthur faz comigo quando está inseguro: procurava uma mão para segurar. Ela ouvia e, com voz serena, dizia:

— Calma, filha, vai ficar tudo bem.

Depois do sonho, a raiva se foi. O meu maternar ficou mais leve. Com uma mensagem dela para mim: mães são imperfeitas, mas são quem acolhe.

Mas, se acolher é tão essencial, por que uma criança acolhida incomoda tanto? Já pararam para pensar? Será que esquecemos de olhar para nossas próprias feridas? Para um mundo em que ser criança e ser mãe parece cada vez mais ríspido?

Acolher, sem ligar para os julgamentos sociais, é um ato de amor.

Na janta corrida do meio da semana, me vejo fazendo suco para meu filho e meu marido. Observo minha família. Lembro que minha mãe fazia isso por nós. E, por um instante, a encontro morando em mim. Sou exatamente quem ela me permitiu ser: a mulher e mãe, eu mesma e seu espelho.

Na ausência de minha mãe, aprendo a acolher a mim mesma no meu luto, nas minhas imperfeições, a criança, a jovem adulta, a mulher madura. Acolho para poder acolher e, quem sabe um dia, aliviar a raiva do meu filho apenas com um sonho.

Autora: Ana Benini – @escritadeana

Revisora: Samantha Viriato

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