Poesia – Depois que você partiu

Depois que você partiu

Não existe palavra

que consiga explicar

o que acontece no coração de uma mãe

quando um filho parte

antes dela.

É como se o mundo continuasse andando,

os relógios continuassem marcando as horas,

as pessoas continuassem sorrindo,

os carros continuassem passando,

o sol continuasse nascendo…

Mas dentro daquela mãe,

alguma coisa parou.

Parou o tempo.

Parou o abraço.

Parou uma parte dos sonhos.

E ficou a saudade.

Uma saudade que não pede licença,

que chega pela manhã,

senta ao lado da cama

e permanece até a noite.

Às vezes ela acorda

e por alguns segundos esquece.

Olha para o quarto,

respira fundo,

e pensa que vai ouvir aquela voz,

aquele chamado,

aquele “mãe”

que tantas vezes parecia tão comum.

Então ela lembra.

E o coração aprende, mais uma vez,

a quebrar.

Porque perder um filho

não é apenas perder alguém.

É perder planos.

É perder aniversários que não acontecerão,

fotografias que nunca serão tiradas,

abraços que ficaram para depois,

viagens que não acontecerão,

conversas que ficaram sem resposta.

É olhar para uma roupa guardada

e sentir que dentro dela

ainda existe um pedaço daquela criança.

É abrir uma gaveta

e encontrar um brinquedo.

É ouvir uma música

e lembrar.

É passar por um lugar

e lembrar.

É sentir um cheiro

e lembrar.

É praticamente tudo

virar lembrança.

E dizem:

“Você precisa ser forte.”

Mas ninguém explica

como uma mãe deve ser forte

quando o próprio coração

parece ter sido enterrado

junto com seu filho.

Ela sorri porque precisa.

Levanta porque precisa.

Continua porque existem outros dias.

Mas existe uma diferença

entre continuar vivendo

e deixar de sentir dor.

Ela continua vivendo.

A dor, porém,

aprende a morar com ela.

No começo, a saudade grita.

Depois, ela sussurra.

E, com o passar dos anos,

ela não desaparece.

Apenas muda de lugar.

Vai para dentro.

Fica mais silenciosa.

Mas nunca deixa de existir.

Uma mãe que perdeu um filho

não esquece.

Ela aprende a pronunciar o nome dele

sem desabar todas as vezes.

Aprende a falar sobre ele

sem necessariamente chorar.

Aprende a olhar fotografias

e, entre uma lágrima e outra,

também sorrir.

Porque aquele filho não foi apenas a sua perda.

Foi também o seu amor.

Foi vida.

Foi história.

Foi presença.

Foi colo.

Foi aprendizado.

Foi um capítulo que, embora tenha terminado cedo demais,

nunca poderá ser apagado.

E talvez essa seja uma das maiores dores:

saber que o mundo continua

enquanto o mundo daquela mãe

mudou completamente.

As pessoas seguem suas vidas.

Voltam ao trabalho.

Fazem planos.

Comemoram aniversários.

Têm outros filhos.

Vão a festas.

E aquela mãe, às vezes,

está no meio de tudo isso

carregando silenciosamente

uma ausência que ninguém consegue enxergar.

Ela pode estar sorrindo

e estar com saudade.

Pode estar conversando

e estar pensando nele.

Pode estar feliz

e ainda sentir falta.

Porque felicidade e saudade

podem morar na mesma casa.

Ela aprende isso.

Aprende que pode rir

sem estar traindo a memória do filho.

Que pode seguir em frente

sem deixá-lo para trás.

Porque seguir em frente

não significa esquecer.

Significa aprender a caminhar

carregando no peito

um amor que agora não pode mais ser abraçado.

Há noites em que ela conversa com ele.

Talvez ninguém saiba.

Talvez ela olhe para o céu

e diga baixinho:

“Meu filho,

eu ainda estou aqui.”

E talvez espere,

mesmo sabendo que não haverá resposta,

algum sinal.

Uma estrela.

Uma lembrança.

Um sonho.

Uma música.

Qualquer coisa

que faça o coração acreditar

por alguns segundos

que aquele amor continua existindo.

E continua.

Porque o amor de uma mãe

não termina no último suspiro.

Ele atravessa a despedida.

Atravessa o silêncio.

Atravessa os anos.

Atravessa a saudade.

Atravessa até mesmo a morte.

Porque um filho pode deixar os braços da mãe,

mas jamais deixa completamente

o coração que o carregou.

Existe um lugar dentro dela

onde ele continuará tendo idade.

Ali, talvez,

ele nunca cresça.

Será sempre aquele menino.

Aquela menina.

Aquele bebê.

Aquela criança.

Com aquele sorriso.

Com aquela voz.

Com aquele jeito.

Com aquelas pequenas manias

que hoje parecem tesouros.

E quando alguém pergunta:

“Você ainda sente falta?”

Ela talvez responda:

“Todos os dias.”

Porque a saudade não tem calendário.

Não entende de aniversários.

Não respeita feriados.

Não desaparece porque passou um ano.

Nem porque passaram dez.

A saudade apenas aprende

a respirar junto com a mãe.

E existe uma coisa que ninguém pode tirar dela:

a história que viveu com seu filho.

Ninguém pode apagar

o primeiro abraço.

O primeiro olhar.

O primeiro sorriso.

O primeiro “mãe”.

Ninguém pode apagar

as noites em claro,

os cuidados,

as preocupações,

as pequenas conquistas.

Ninguém pode apagar

o amor.

E talvez seja esse amor

que, pouco a pouco,

ensina aquela mãe a continuar.

Não porque a dor deixou de existir.

Mas porque o amor ficou maior

que a própria ausência.

Um dia ela poderá olhar para o céu

sem perguntar apenas:

“Por que você foi embora?”

Talvez consiga dizer:

“Obrigada por ter existido.”

E essa frase carregará

todas as lágrimas.

Todos os abraços.

Todas as lembranças.

Todas as saudades.

E talvez ela entenda

que algumas pessoas passam pela nossa vida

por pouco tempo,

mas deixam marcas

que duram para sempre.

Um filho não precisa viver muitos anos

para ser amado por uma eternidade.

Porque para uma mãe,

não importa quantos anos passaram.

Filho é filho.

E o coração de uma mãe

não conta o tempo.

Conta o amor.

Por isso, quando a noite chegar

e aquela mãe sentir novamente

o vazio ao lado dela,

que ela se permita chorar.

Que ela se permita sentir.

Que ela não tenha vergonha da saudade.

Que ninguém diga

que já passou tempo demais.

Porque não existe prazo

para o amor de uma mãe.

E se algum dia ela sorrir novamente,

que ninguém pense

que ela esqueceu.

Ela apenas descobriu

que é possível carregar saudade

e ainda assim continuar vivendo.

Ela aprendeu a caminhar

com uma parte do coração

morando em outro lugar.

E talvez seja isso

que significa amar alguém para sempre:

continuar pronunciando seu nome

mesmo quando ninguém mais o chama.

Continuar contando sua história.

Continuar lembrando seu sorriso.

Continuar guardando suas fotografias.

Continuar dizendo:

“Você foi meu filho.”

E, acima de tudo:

“Você sempre será.”

Porque algumas despedidas

não encerram o amor.

Apenas transformam sua forma.

O abraço vira lembrança.

A voz vira memória.

A presença vira saudade.

E o filho…

vira eternidade.

Escrito por: Juliana Lacerda – @julianalacerdadonascimento

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