A construção e manutenção de um relacionamento a dois demanda admiração mútua, mais até do que amor. Claro que as pessoas são diferentes e cada uma admira um tipo de coisa. Ciente disso, busquei e encontrei um parceiro que eu admirava.
Independentemente da opinião de qualquer outra pessoa à nossa volta, eu olhava para o lado e me enchia de orgulho de ter aquele homem comigo. De ele também ter me escolhido. De poder contar com ele na nossa vida a dois. Tanto no nosso dia a dia, quanto para nossos planos futuros.
Um dos planos que fizemos juntos, foi o de termos um(a) filho(a). Acontece que, com a chegada de uma criança, nossos papéis e responsabilidades foram reconfigurados. Não somente como casal, mas perante a vida como um todo.
A maternidade me transformou numa mulher diferente, com novas responsabilidades, sonhos e gostos. Só que essa nova versão de mim mesma não encontrou admiração pela forma do meu (então) parceiro exercer a paternidade.
Não conseguimos reformular nosso relacionamento para esta nova etapa. Todos os aspectos dele que despertavam minha admiração, ficaram em segundo plano, quase transparentes. Afinal, como admirar alguém que não enxergo como um bom pai para nossa filha?
A manutenção de um relacionamento saudável tornou-se inviável nessas condições. Por um lado, um filho não é justificativa suficiente para manter um casal junto. Por outro, não é justo que a mãe deva passar sozinha pelas dificuldades da gravidez e puerpério. Entretanto, mesmo que o casal permaneça formalmente junto, é possível que a mulher receba essa sobrecarga sozinha. Essa falta de apoio leva à falta de admiração pelo parceiro, num ciclo sem fim. Consolida-se assim a solidão a dois.
Aparentemente, a mulher que me tornei com a maternidade tem outras prioridades que não são compatíveis com ele. Ou com o relacionamento que vínhamos construindo. Tudo nele que me despertava admiração continua existindo, como num dejávù, mas não faz mais sentido na minha/nossa realidade atual. As peças não encaixam mais no meu quebra-cabeça, que se tornou mais complexo e com uma nova figura estampada: nossa filha.





