Uma veste jaleco branco, conquistado com noites de estudo e resistência; a outra, avental de tecido usado, que conhece de cor cada rosto e cada necessidade da rua onde nasceu.
Classes sociais diferentes, caminhos que parecem opostos, mas costurados pelo mesmo fio: o de ser mulher negra num mundo que sempre escolheu quem colocar no centro, quem fazer rainha, quem ver com afeto.
Essa solidão não chega com a idade adulta. Ela brota na infância, quando a menina aprende em silêncio que seu corpo, sua presença, sua existência são lidos de outro jeito. Antes de entender o mundo, já sente o peso de olhares que não acolhem, de ausências que explicam tudo sem dizer uma palavra.
Na escola, quando as princesas das histórias são sempre de pele clara, quando ninguém a escolhe para ser a primeira opção, a preferida, a querida. Cresce sabendo que nem sempre haverá abrigo, proteção ou pertencimento fácil.
Essa dor não é só sentimento: é feita de racismo estrutural, de territórios sem sombra de árvores, sem esgoto, sem livros que contem histórias parecidas com as suas.
É o racismo que marca o lugar onde se vive, que fecha portas antes mesmo que se bata nelas, que transforma a solidão em experiência compartilhada, tecida por um sistema que empurra para as margens.
Mas é entre si que encontram o primeiro refúgio. Meninas que se reconhecem no brilho do olhar, na forma de segurar o choro, na força de seguir em frente. Compartilham dores que ninguém mais vê, constroem laços que funcionam como casa, como alimento, como escudo contra o mundo que as quer menores.
E os anos passam — e a marca não some. A médica chega ao consultório, mas ainda precisa provar a cada instante que sabe o que faz, que merece estar ali. A comerciária atende a todos com carinho, mas muitas vezes volta para casa sentindo que poucos realmente a enxergam.
Nenhuma delas escapou daquela lição antiga: na vida adulta, também não são escolhidas como princesas, nem sempre são a namorada preferida, a companheira sem reservas.
A solidão se faz mais funda no amor: persiste a ideia de que há ali “um defeito de cor”, como se a própria pele fosse motivo para não ser a escolha definitiva. Ecoa em cada encontro o verso que diz: “O seu cabelo não nega mulata, mas como a cor não pega mulata, eu quero o seu amor” — um desejo que pede o sentimento, mas nega a identidade.
Estas dores não são apenas da médica e da comerciária. Elas representam milhares de mulheres espalhadas pelo mundo, invisibilizadas não por ausência de inteligência ou capacidade, mas pelos monstros que as devoram: o preconceito.
Texto de: Maria das Graças de Oliveira Rocha – @mariadasgracas.rocha.9
Revisão: Angélica Filha





