Mãe de muitos caminhos 

O roncó era útero, e eu, água.

Água (re)nascente.

A primeira coisa que aprendi, no ventre aquoso de Òṣùn, foi a morrer.

Morrer para o Eu e nascer para o Nós, negociando o autoamor refletido no Abebé da minha mãe.

O encontro com as águas, com o tempo, ensina que tudo é aprendizado. Que cada travessia devolve uma pergunta e cada mergulho revela uma resposta. Foi nelas que compreendi o valor inestimável que Òṣùn oferece a quem a carrega como princípio e destino: visibilize-se.

Sim, o Candomblé é, antes de tudo, sobre servir. Mas existe uma linha delicada entre servir ao outro e abandonar a si mesma. E, de tudo o que a Senhora das Águas Doces espera de nós, deixar de ser quem somos para amar mais o outro nunca foi uma possibilidade.

O Abebé não existe para contemplarmos uma beleza superficial. Em Òṣùn, o espelho nunca foi um instrumento do narcisismo ocidental. Ele convoca à presença e nos obriga a sustentar o próprio olhar, reconhecer nossas potências, nossas fragilidades e a responsabilidade de existir por inteiro.

Foi só depois dessa lição que aprendi a segunda coisa: renascer.

A última vez que experimentei esse renascimento havia sido em 2019, quando pari minha filha. Naquele instante, não nasceu apenas uma criança: nasceu também uma mãe.

Eu tive que aprender a zelar pela minha sobrevivência e pela da minha filha. Depois de renascida, padecer não era uma opção que me vinha à cabeça. 

Depois de anos engatinhando pela maternidade, sinto que foi apenas recentemente que comecei a dar meus primeiros passos. No roncó, a sensação era familiar, mas diferente. Era outro tipo de nascimento.

Ao mesmo tempo em que eu era filha, acolhida pelas águas, também era mãe. E essas duas existências jamais estiveram separadas.

Foi ali que compreendi que toda mãe continua sendo filha e que toda filha carrega, em alguma medida, a possibilidade de maternar. Uma existência alimenta a outra. Uma inaugura a outra. Não há maternidade sem antes haver colo. Não há colo que não tenha sido, um dia, procurado.

Talvez por isso as temporalidades de Òrìṣà nunca obedeçam ao relógio. Elas atravessam o tempo dos homens, tão apressado, tão pequeno diante da imensidão do axé. Enquanto contamos horas, dias e anos, a ancestralidade trabalha em outra medida: aquela em que passado, presente e futuro se encontram para lembrar que toda travessia é, também, um harmônico “ritornelo”, como diz Leda Maria Martins (2021). 

Já (re)nascida, compreendi que existem muitas semelhanças entre ser Mãe Èkéjì e ser Mãe Biológica de alguém.

Uma delas é ser esteio.

Seus filhos, independentemente da idade, olham para você profundamente e, no fundo, ainda o fazem com olhos de infâncias. Esperam que sua presença confirme que estão seguros. Na mesma medida em que esperam acolhimento, aceitação, conforto e amor.

Quando são corrigidos, os corpos se introspectam. Os olhos procuram o chão, as palavras se recolhem e a frustração faz um barulho que também nos atravessa. Porque corrigir quem se ama nunca deixa de doer em quem corrige.

Os seus problemas pertencem a você. Os deles, de alguma forma, também.

Você continua sendo humana — e é importante que eles saibam disso. Mas existe algo de sagrado em zelar pelos passos de Òrìṣà. Talvez por isso esperem que o seu cheiro seja o de casa. Porque, no fundo, é isso que encontram quando pensam nos donos e donas de suas cabeças.

O roncó sempre será útero. E eu, eternamente, água. Água que aprende a contornar pedras sem deixar de seguir seu curso. Água que se encontra com outras águas e nelas reconhece a própria existência.

Fui gestada mais uma vez para maternar. Não apenas pessoas, mas caminhos. Não apenas corpos, mas destinos.

Talvez eu ainda esteja aprendendo. Talvez maternar seja justamente isso: descobrir, todos os dias, que o ventre pode crescer sem que o corpo mude. Que o amor também se alonga. Que o cuidado também se expande.

Meu ventre foi alargado pelas próprias mãos de Óṣùn. Descobri, enfim, que existem maternidades que não acontecem no corpo. Acontecem na alma. E talvez sejam justamente essas as que nunca cessam de nascer.

Texto de: Èkéjì das Águas Douradas – @mainhacademica

Revisora: Angélica Filha

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