Crônica – Fora do padrão

Uma infância marcada por espaços em que era clara demais para ser negra e escura demais para ser branca. O cabelo crespo que não tinha condição de ser tratado, porque comer e ter roupas eram as prioridades de seus pais. Os olhos verdes sumiam em meio ao bullying que sofria na escola. Sua cor era parda, uma cor indefinida. Afinal, parda era a cor do embrulho do pão e ela não se via ali…

Com o tempo, a moda para pobres da época era usar o ferro quente no cabelo. Uma escova de aço, pesada, que as mães esquentavam na boca do fogão e colocavam a menina sentada ao lado, puxando os fios crespos para alisar e abaixar o pixainho, como era popularmente chamado. O cabelo era curtinho, então, só dava para alisar a franja…Depois, houve o acesso à pasta alisadora que tinha um cheiro muito forte e toda a escola já sabia o que era…

Era, mesmo assim, uma criança feliz, que na periferia de São Paulo crescia em meio às brincadeiras com os irmãos mais velhos, Xou da Xuxa, pães com mortadela e tubaína, assistindo à Sessão da Tarde.

A adolescência atravessou discursos de não pertencimento: muito magra, muito estranha por ser uma parda de olhos claros, muito feia pelo cabelo crespo, espinhas misturadas às sardas claras no rosto…

A menina de olhos verdes e cor parda cresceu, mesmo muita gente insistindo que aqueles não poderiam ser seus olhos e que, com certeza, descoloria os pelos dos braços… Afinal, era impossível alguém da sua cor e origem ter pelugem loira nos braços…

Assim como não era possível falar inglês fluentemente, ter frequentado uma universidade reconhecida, ter feito intercâmbio, chegar ao nível de conquistar o título de Mestre… Com esta cor, este jeito exótico, pais nordestinos e de origem periférica? Negra metida, foi o que ouviu, muitas vezes.

Fora do padrão, como sempre.

E seguindo o fio da vida, caros leitores, quando se tornou mãe, teve uma menina branca, mesmo a origem paterna não sendo predominantemente europeia. Muitos questionaram até mesmo como ela conseguiu fazer uma menina tão linda e branca, mesmo com seus olhos verdes expressando que nós todos somos brasileiros. Há aqueles que procuraram os olhos verdes da mãe na pequena e, não os vendo, ficaram desconfiados… E, ainda, a menina não escurecia com seus grandes olhos de jabuticaba… Como pode?…

E como a vida é uma verdadeira montanha-russa de emoções, a maternidade se revelou atípica. O autismo de sua menina foi descoberto no início da infância e ela, mãe solo, mas, com uma família que nunca a abandonou, percorre, entre letras e neurodivergências, a trilha de mais lutas e questionamentos sobre a maternidade, a vida profissional e pessoal. Afinal, a vida não para.

Hoje, essa menina crescida está escrevendo a vocês, nobres leitores. Negra, professora, mãe atípica, escrevivente, periférica e com seus olhos verdes cansados da luta diária, mas sempre brilhantes por saber que cor de pele e textura de cabelo são detalhes que a lembram que toda a luta de seus pais e antepassados valeram a pena para seguir e resistir.

Texto de: Vania Rodrigues dos Santos – @mamae_writer_neurodivergencias

Revisão: Angélica Filha

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