Ainda que nossas experiências sejam únicas, porque dizem respeito a cada uma de nós, é preciso admitir que elas ecoam e encontram outras pessoas na mesma travessia. As águas podem ser distintas, os tempos podem ser outros, mas a experiência compartilhada tem um valor imenso.
Essa, talvez, seja uma lição que as mães aprendem desde sempre.
Recentemente, depois de visualizar alguns stories, uma amiga me perguntou qual era a fórmula para conciliar maternidade e pós-graduação. Ela está fazendo mestrado e tem sido uma mãe muito zelosa com seu menino de quatro anos.
Ao ler aquela pergunta, aparentemente simples, percebi que a resposta exigia uma reflexão mais complexa. Eu poderia responder de modo automático, com conselhos rasos facilmente encontrados em publicações de autoajuda. Mas, considerando quem me perguntava e a complexidade do tema, concluí que precisava oferecer uma resposta mais elaborada.
Sou mãe de três filhos, hoje, todos adolescentes. A maternidade, para mim, surgiu como um processo natural da vida; já a vida profissional e acadêmica surgiu como desejo.
Ao lidar com essas duas identidades, percebi que, apesar do discurso de que elas não andam de mãos dadas, eu havia decidido que, na minha vida, elas andariam juntas.
Foi assim que fiz o mestrado, sendo mãe de um filho pequeno e grávida de outro. Também foi assim que, alguns anos depois, mudei para São Paulo com meus três filhos adolescentes para fazer doutorado na USP, sem qualquer rede de apoio.
Mesmo estando entre intelectuais, uma mulher muitas vezes seguirá solitária no desafio de ser mãe e pesquisadora. Fomos ensinadas que nosso maior compromisso é com a maternidade e que nossos desejos e aptidões devem ficar em segundo plano.
É a crença nessa ideia que nos faz tentar conciliar uma maternidade ideal com uma pós-graduação exemplar. Antes mesmo da sociedade nos julgar, nós já nos cobramos e sentimos culpa por não conseguir fazer tudo a contento.
Colocamos a régua lá em cima, como se a excelência em tudo pudesse diminuir essa culpa. Esse é o paradoxo de ser progressista e, ainda assim, estar inserida em uma sociedade patriarcal.
A verdade é que essa cobrança incute em nós um sentimento de incapacidade, de insatisfação e de insuficiência. Aos poucos, adoecemos. Ficamos nós, os filhos e a pesquisa tentando encontrar uma forma de impedir que tudo desabe.
Continuando minha resposta, eu disse à minha amiga que, diante da solidão que muitas vezes acompanha esses desafios, era preciso que ela acolhesse a si mesma com carinho, entendesse suas limitações e se tratasse como o mundo deveria tratá-la.
Também a alertei de que, em alguns momentos, a pesquisa exigirá mais atenção; em outros, será o filho. Sua jornada nunca será igual à de alguém sem filhos, porque ela não conseguirá dedicar 7 ou 8 horas diárias à pesquisa quando há outro ser que precisa de seus cuidados. Ainda assim, ela deve ocupar o seu lugar.
Foi então que compartilhei que compreender isso me trouxe alento e a percepção clara de que minha trajetória é diferente porque decidi ser, por vezes, uma mãe-pesquisadora e, por vezes, uma pesquisadora-mãe.
Alertei minha amiga para que se lembrasse sempre do quanto ela é incrível, inteligente, competente e capaz de alcançar o extraordinário. Desejo que ela defenda sua dissertação com todos os louvores que merece e consiga ultrapassar os obstáculos e desafios.
Mas desejo também que as próximas mães sejam acolhidas em seus desejos, compreendidas em suas limitações e recebam o reconhecimento que merecem. Há sonhos de mãe, há sonhos de mulher. E um não deve anular o outro.
Texto de: Renata Lameira – @eurenatalameira
Revisão: Bibianne Terra





