A mulher e o direito de ir e vir

Ao nascer, cada pessoa já recebe um pacote que vai acompanhá-la por toda a vida, definido pelo seu gênero. No caso dos homens, trata-se de um conjunto de privilégios. Para as mulheres, um coletivo de dificuldades. Um dos pontos em que as realidades masculinas e femininas são bem diferentes é quanto ao direito de ir e vir. Teoricamente, a liberdade de locomoção é assegurada a todos pela Constituição Federal. Na prática, poder ir a qualquer lugar em qualquer horário é um privilégio exclusivamente masculino.

Um homem, por exemplo, pode tranquilamente praticar corrida ou ciclismo sozinho antes de amanhecer ou depois que escurece. Para uma mulher, isso já não é realidade. Essa prática esportiva deve acontecer dentro de uma academia, ou durante o dia em lugares movimentados, ou claro, na companhia de um homem.

O direito à locomoção feminina também é relacionado às suas vestimentas. A falta de segurança da mulher é inversamente proporcional ao tamanho de suas roupas. Isto é, com roupas curtas, a insegurança é maior. Com roupas justas também, mesmo se for para a prática de esportes. Além da roupa, acessórios também podem potencializar essa situação, caso sejam considerados (por homens) como provocantes. Nesse rol, constam saltos altos, unhas vermelhas, maquiagem, tatuagens e tudo o mais que a imaginação masculina for capaz de relacionar ao seu desejo sexual.

A falta de segurança no meio de locomoção também é influenciada pelo gênero. Para uma mulher, não é seguro usar um transporte público sozinha na madrugada, nem pegar táxi ou uber sozinha nesse horário, muito menos dirigir sozinha um veículo. Pode-se resumir que não existe meio de locomoção seguro para uma mulher sozinha na madrugada.

Não é novidade que os homens têm seus privilégios protegidos por outros homens. Mas quais desses homens também estão dispostos a usar suas regalias para mudar essa realidade? Quais estão dispostos a agir em resposta aos problemas cotidianos, ou para mudar essa realidade para as próximas gerações?

Não é preciso muito esforço para um homem usar seus privilégios para auxiliar mulheres nas dificuldades que elas encontram somente pelo fato de serem mulheres. Basta, por exemplo, estar disposto a acompanhar uma mulher até a porta de sua moradia no deslocamento à noite. Ou a dividir o táxi/uber com ela nesse horário. Ou fazer qualquer atitude desse tipo que permita que uma mulher tenha liberdade para se locomover sem se privar, ou sem depender exclusivamente da sororidade de outras mulheres.

Como mãe, me pergunto qual a melhor forma de criar nossos filhos para que auxiliem mulheres nas situações em que falta segurança a elas e sobram regalias a eles. Para que se disponham a ser a presença masculina que viabiliza às mulheres de sua convivência o direito de ir e vir. Para que se posicionem como homens aliados às mulheres. Para que no futuro, o direito de ir e vir não dependa do gênero da pessoa? 

Autor

  • Marcia do Valle

    Márcia do Valle é mãe da Julia e da Clara, madrasta da Maria, feminista e carioca. Além de engenheira e mestra em administração de empresas, também  é autora dos livros "180 Graus" (Editora Marco Zero) e "Onde guardo as bobagens que eu contava só para você?" (Editora Adelante). Atualmente divulga seus textos no instagram @marciadovalleescritora.

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