Acho que toda mãe já acordou, pelo menos uma vez, se sentindo como Jim Carrey em O Show de Truman.
Dia Um: levantar, trocar fralda, estender roupa no varal, levar o filho à escola.
Dia Dois: levantar, trocar fralda, estender roupa no varal, levar o filho…
E assim a vida segue, variando apenas na quantidade de cocô que o bebê produziu — e, acreditem, a cor e a consistência importam muito! Mesmo aquelas que detestam rotina acabam concordando: criança pede previsibilidade, e essa previsibilidade nos faz sentir como robozinhos programados para cuidar, limpar e servir.
No meu universo da maternidade, os planos culminavam em um único objetivo: colocar as crianças para dormir às oito horas. Assim que fechavam os olhinhos, eu me permitia viver o que quisesse. Só eu e eu mesma, curtindo meus quarenta minutos livres. Para ter esse momento, eu vivia as 24 horas.
Enquanto cuidava da casa, fazia meus planos: comer chocolate assistindo um filme bobo — que, claro, nunca termino de ver —, ler algumas páginas de um livro — que eu dormiria antes de entender qualquer coisa —, passar creme nos pés ou simplesmente olhar para o teto. Porque sim, eu podia olhar para o teto sem ninguém me interromper.
Até que um dia, enquanto amamentava minha pequena, comecei a sonhar com o que faria quando as oito horas chegassem. Além do cansaço rotineiro, aquela tinha sido uma semana daquelas. Minhas unhas estavam com esmalte descascado, meu cabelo desgrenhado, como se tivesse vida própria, e minha pele implorava por um tratamento de choque.
Pensei em todos os empecilhos que poderiam atrapalhar meu programa e me dediquei a criar soluções para sanar um a um. Meus pensamentos, então, foram interrompidos por aqueles sons gostosos que os bebês fazem quando acham que estão arrasando na comunicação.
— Anguuuu.
Olhei para baixo e me dei conta que minha filhinha tinha pulado de fase. Ela aprendera a dizer as primeiras expressões vocais. Achei tão fofo que passei a imitá-la e, para minha surpresa, ela correspondeu.
— Angu.
— Anguuuu.
— An an anguuu.
Prosseguimos por um bom tempo nessa conversa super produtiva. Eu ria, ela ria. Aqueles lábios finos, cercados de bochechas fartas, me abraçaram. Apertei-a contra meu peito, senti o perfume dos seus poucos fios de cabelo e não me importei quando meu rosto ficou molhado.
Naquele instante, percebi: não precisava esperar. As minhas oito horas tinham chegado.
Por Érica Fernandes – @ericafescritora
Revisão: Bibianne Terra





