Coluna – Cultura familiar, valores e legado

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Durante séculos, nossa sociedade limitou o legado passado pelas gerações a bens materiais e posições na sociedade. Mais do que filhos, os descendentes eram herdeiros. Alguns herdavam bens e títulos de nobreza. Outros, o ofício do pai. Os menos favorecidos, herdavam as dificuldades e lutas das gerações anteriores. Ao nascer, o destino de cada filho já estava pré-definido. Já as filhas, nem sempre foram enxergadas como herdeiras, o que as levava a um contexto extremamente desfavorável em todas as classes sociais.

Felizmente, o cenário mudou. Atualmente, cada pessoa tem mais autonomia para escrever sua própria história. Nesse contexto, como mãe, me questiono qual legado deixarei para minhas descendentes.

No meu caso, não será um ofício, tampouco um título de nobreza. Ser engenheira, advogada, escritora, professora, médica ou faxineira não leva minhas filhas a exercerem o mesmo ofício que eu. Cabe a elas trilharem seus próprios caminhos, podendo ter mais sucesso do que eu (tomara) ou menos.

Também não planejo deixar muitos bens materiais. Desde que me tornei mãe, não priorizo acumular riquezas, e sim investir na formação das minhas filhas. Para que tenham meios de construírem seus caminhos. Afinal, conhecimento é uma riqueza que nunca pode ser perdida.

Se não deixarei para minhas herdeiras nem meu ofício nem bens materiais, que legado então planejo deixar para elas? O que pretendo é que elas herdem meus valores. O que me guia, em que acredito, aquilo que considero inegociável. 

Venho construindo nossos valores familiares, adaptando a definição de valores corporativos: crenças compartilhadas por membros de uma família sobre o que é importante, desejável ou apropriado no contexto familiar. Esses valores formam uma parte central da cultura familiar e influenciam as decisões e comportamentos dos indivíduos.

Que minhas filhas herdem meus principais valores, que venho consolidando com o tempo: liberdade, independência, determinação e resiliência. Que seus comportamentos estejam alinhados com a busca de desenvolvimento através de estudo e trabalho, sempre com ética. Que combatam, de forma inegociável, preconceitos, misoginia e qualquer outro tipo de violência.

Esse legado não é transmitido pelo sangue, nem através de testamento, e sim com exemplos, atitudes e conversas. São ideias e ideais que permeiam nossa rotina em cada detalhe e também nos grandes acontecimentos. Como peças que aparentam ser aleatórias, até que formam um mosaico quando vistas de longe. Em outras épocas, esse mosaico poderia ser o brasão de nossa família. Hoje, me parece ser a lente através do qual nossa família enxerga, vivencia e constrói nossa existência através do tempo, geração após geração.

Autor

  • Marcia do Valle

    Márcia do Valle é mãe da Julia e da Clara, madrasta da Maria, feminista e carioca. Além de engenheira e mestra em administração de empresas, também  é autora dos livros "180 Graus" (Editora Marco Zero) e "Onde guardo as bobagens que eu contava só para você?" (Editora Adelante). Atualmente divulga seus textos no instagram @marciadovalleescritora.

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