A culpa é da mãe

Dizem que nasce uma mãe, nasce uma culpa. E é bem verdade. Lembro que na segunda gravidez, em meio à pandemia e com meu sogro doente, eu chorava quase todos os dias. Sentia uma angústia enorme. E então eu chorava mais ao pensar que meu bebê estava sentindo toda aquela angústia também. Eu sentia culpa e medo dele sentir que eu não estava feliz. Eu estava muito feliz por ele, pela vinda dele, por aquele coração batendo dentro de mim. Mas eu morria de medo dele sentir a tristeza que também existia ali! Gael tem quatro anos e até hoje me pego pensando se as birras dele têm relação com a gravidez. 

A culpa é da mãe quando o bebê chora. A culpa é mãe quando o bebê não dorme a noite toda; quando mama em livre demanda; quando não come doce antes dos dois anos, tadinho! Quando tá gordinho ou magrinho. A culpa é da mãe quando a criança faz birra; quando ela come doce. A culpa é da mãe quando as crianças brigam enquanto ela está trabalhando no computador, bem ali no quarto ao lado. A culpa é da mãe quando ela trabalha muito ou quando “não trabalha”. E quando dá muito colo, o filho fica manhoso, mal acostumado. Tudo culpa da mãe.  

Eu sempre fui uma mãe muito dedicada. Me preparei pra ser mãe. Saí do mercado de trabalho pra ir pra área acadêmica, fiz mestrado e segui caminhando pro doutorado, tudo planejando uma maternidade com um trabalho que fizesse mais sentido, que pudesse contribuir com um mundo melhor e que me permitisse mais tempo de qualidade com meus filhos. Assim foi e assim é. Concluí o doutorado e trabalho como pesquisadora, na maior parte do tempo de forma remota. Escrevo à muitas mãos. Sempre tem uma mãozinha junto das minhas, que digita, apaga, puxa o fone. Fico brava, cansada, frustrada como mãe e como pesquisadora. 

Mesmo com toda a dedicação, vem a culpa. Percebo que, afinal, não tenho o tempo de qualidade que planejei. Pesquisadora não tem férias, não tem fim de semana. Se não estou no computador, a minha cabeça está. Mas quando eu consigo escrever, eu também sinto orgulho e volto pra eles com muito mais energia, alegria, saudade. Eu percebo isso e entendo do que preciso. Preciso ser eu também, aquela que existe pra além da mãe. 

A sociedade ensina, cobra, culpa e a gente aprende, se cobra, se culpa. Os filhos ensinam muito mais. E um aprendizado bem importante pra mim foi justamente quando eu estava me sentindo muito culpada: quando Gael estava com um ano e meio, eu estava me recuperando de uma fratura na coluna e finalmente poderia voltar à jogar capoeira. Voltei, meu marido e eu contratamos uma pessoa querida pra cuidar dos meninos enquanto eu treinava. Eles ficavam ali pertinho da gente, mas Gael chorava muito, não queria ficar com ninguém. Algumas vezes eu parava de treinar pra ficar com ele, muitas outras eu nem ia pra capoeira. Então comecei a pensar que estava cedo pra eu fazer isso, que eu poderia esperar mais um pouco pra voltar aos treinos. Pois foi exatamente aí que eles, meus filhos, me mostraram que a melhor escolha não era desistir. 

Naquele seria meu último treino, quando eu saí do jogo, Gael estava no colo do pai, vibrando, batendo palminha e gritando: “ma-mãe, ma-mãe”, torcendo por mim. No outro treino eu toquei pandeiro e, ao final, Ben veio com os olhos brilhando e falou: “nossa, mãe, tava tão bonito te ver tocando”! E não pára por aí. 

Na capoeira também temos o samba de roda, que eu adoro. Mas eu sempre sambava com os pequenos literalmente embaixo da minha saia ou com um no colo. E mais algumas vezes eu pensava em parar, em esperar eles crescerem mais um pouco pra que então eu pudesse fazer minhas coisas. Foi quando Benjamim começou a me desenhar sambando; e um dia disse que a minha “roupa mais bonita é a saia do samba”. Então de repente me dei conta de que eles estavam ali, agarrados comigo, porque gostavam de me ver rodando a saia, feliz. Eles não querem que eu pare, eles querem fazer parte dessa alegria. Querem que eu compartilhe com eles também os meus momentos felizes. E então eu percebo o quanto é importante estarmos bem, felizes, fazendo o que nos faz bem. Porque também pode ser culpa da mãe quando os filhos são felizes, quando eles se sentem seguros, quando têm orgulho da mãe e de quem são. E quando sabem que a mãe pode estar ali, dançando, jogando, tocando, trabalhando, mas que ela volta e volta mais inteira pro lugar onde, afinal, ela é mais feliz e completa: junto dos seus. 

E então a mãe também percebe que ela pode se sentir mais leve. 

Por Juliana Linhares – @julianalinhares.maedetres

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