O que eu gostaria de compartilhar sobre mim e sobre minha experiência como mãe

Me deparei com a questão — “O que você gostaria de compartilhar sobre si ou sobre sua experiência como mãe?” — enquanto rolava infinitamente o feed do Instagram. É engraçado como me envolvi muito mais com as redes sociais após o parto; parece ser sempre a forma mais fácil de “sair de casa” com um bebê no colo.

Talvez a pergunta, por si só, não prendesse tanto minha atenção, mas, por ter vindo de uma página intitulada “Mães que Escrevem”, ganhou um brilho diferente. Senti que o questionamento iluminou um pedacinho de mim que, há muito,x eu havia esquecido. Apresentada a mim em um momento muito certeiro (obrigada, algoritmo!), a pergunta reacendeu uma faísca bem no espaço onde eu sufocava todos os sonhos que julgava não ser capaz de realizar.

As estradas que escolhi trilhar ao longo da minha jovem vida — e admito esse “jovem” com certa relutância, por me sentir velha aos 28 — levaram-me a um lugar onde nunca imaginei estar e do qual, por um tempo, achei que nunca seria possível sair. Os pormenores dessa história ficam para uma outra ocasião; o que me interessa dizer aqui é que foi a gestação que deu o impulso para eu me colocar em movimento novamente e mudar do lugar que eu já tinha aceitado e nomeado como meu.

Tomar consciência da empolgação que senti ao descobrir que colocaria uma nova vida no mundo me fez perceber que talvez, no fundo, eu não acreditasse realmente que a vida não valia a pena. Tracei a meta de voltar a me cuidar e de me reencontrar durante a gestação. Surpreendendo a todos, encontrei dentro de mim um grande potencial para a maternidade — logo eu, que era tão inconsequente e nunca tinha trocado uma fralda antes. Fiz jus à afirmação que tanto escutei sobre “quando nasce um bebê, nasce uma mãe”, apesar de, curiosamente, não acreditar nela de fato.

Todo o meu percurso, a partir da descoberta da gravidez, foi guiado pelo medo constante de não conseguir me tornar mãe e pelo cuidado para não permitir que isso acontecesse, deixando todas as outras facetas da vida de lado. No meu caso, isso parece ter sido realmente necessário.

Agora, sendo mãe há cinco meses, começo a voltar timidamente meu olhar para uma existência que vai além dessa relação mãe-bebê que tenho vivido de forma exclusiva. E, verdade seja dita, existe uma enorme e silenciosa culpa ao desejar realizar planos que não envolvem, de forma direta, o filho. Por mais que racionalmente eu saiba — e já tenha repetido diversas vezes para outras mulheres — que elas não são apenas mães, não posso deixar de pensar em como o inverso também deve ser considerado: sendo agora mãe, também não sou apenas a mulher que era antes.

Sinto que tudo o que eu fizer, todos os lugares que eu ocupar, carregarão uma marquinha da minha maternidade. Particularmente, gosto dessa ideia. Acredito que seja exatamente por isso que o questionamento suscitado pelo projeto me permitiu não só revisitar o sonho de escrever para que outro alguém leia, mas também tomar, pela primeira vez, uma atitude concreta para que isso aconteça.

A maternidade me trouxe essa pitadinha de coragem também.

Por Camilla Feliciano – @camz.a

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