Quando um filho entra na adolescência, não é apenas ele que muda. A mãe também passa por uma fase de transformações, muitas vezes confusa e dolorosa. Costumamos falar muito sobre o adolescer dos filhos, mas pouco sobre o adolescer materno, esse processo interno em que precisamos reaprender a maternar alguém que já não é mais criança, mas ainda não é adulto.
Na infância, o cuidado é concreto. A gente alimenta, protege, organiza, ensina. A presença materna é evidente e necessária o tempo inteiro. Na adolescência, porém, o vínculo muda de natureza. O cuidado deixa de ser físico e passa a ser relacional. Já não basta saber o que fazer; é preciso saber como estar.
Percebo que essa fase exige algo semelhante ao que vivemos no puerpério. Existe amor, mas também insegurança. Existe experiência acumulada, mas ela já não responde a todas as perguntas. Aquilo que funcionava antes perde eficácia, e somos convidadas a construir novas formas de maternar. Saímos do trilho, perdemos o domínio de como agir e precisamos correr contra o próprio tempo para aprender a lidar com a nova realidade.
No meio de todo esse movimento inesperado, a adolescência ainda se apresenta, ao mesmo tempo, como despedida e encontro. Há um luto pela criança que se despede, aquela que precisava de colo e aceitava nossas respostas sem contestar. Em seu lugar surge um sujeito em formação, com opiniões próprias, emoções intensas e uma necessidade legítima de autonomia. Amar esse novo filho exige atualização emocional da mãe.
Do ponto de vista do desenvolvimento humano, sabemos que o adolescente precisa se diferenciar da família para construir identidade. O que nem sempre se diz é que, enquanto ele se separa, nós também precisamos aprender a soltar e confiar. E esse equilíbrio talvez seja um dos maiores desafios da maternidade.
Não é fácil compreender que aquilo que por anos foi nossa responsabilidade direta e constante agora se transforma na jornada individual de outra pessoa. Nossa função muda e passa a exigir desapego, presença e confiança. Nesse caminho, muitas vezes exigimos de nós mesmas segurança absoluta, coerência nas atitudes e respostas imediatas. Mas a verdade é que também estamos aprendendo e que cada ação nossa é, muitas vezes, uma tentativa de acertar que nem sempre dá certo.
Na adolescência, a maternidade nos mostra que ela não é um estado fixo, mas um processo contínuo de adaptações. Cada fase do filho inaugura uma nova versão da mãe.
Há ampla preparação social para o nascimento de um bebê, mas quase nenhuma para o nascimento de um adolescente dentro da família. E, ainda assim, seguimos atravessando essa etapa em movimento, tentando nos reorganizar enquanto a vida continua acontecendo.
Foi nesse percurso que passei a compreender o valor das redes de apoio. Conversas entre mães, trocas honestas, leituras, escuta e acolhimento funcionam como espaços de regulação emocional coletiva. Não buscamos respostas definitivas, mas experiências de outras famílias que também estão aprendendo enquanto caminham.
Hoje compreendo que educar adolescentes talvez seja menos sobre controlar comportamentos e mais sobre sustentar vínculos seguros por meio do diálogo, da escuta e da presença.
Antes eu nem pensava nisso, mas agora, vivendo essa etapa, percebo que o adolescer de um filho também pode ser uma oportunidade de amadurecimento materno. Somos convidadas a revisar expectativas, enfrentar medos e ampliar nossa própria capacidade de comunicação e empatia. Crescemos juntos, ainda que em direções diferentes.
No fundo, o objetivo permanece o mesmo: contribuir para que nossos filhos se tornem pessoas emocionalmente capazes de conviver, respeitar diferenças e distribuir afeto no mundo.
Se a infância nos ensinou a cuidar, a adolescência nos ensina a confiar.
E talvez esse seja o verdadeiro primeiro adolescer de uma mãe.
Por Graziella Bezerra Cavalcante – @grazibezerrac





