Eu sempre pensei que precisaria estar pronta para a maternidade. Como se existisse um momento certo, uma estabilidade ideal, um preparo que garantisse que a gente vai dar conta de tudo o que vem depois. Mas a verdade é que, na prática, não é assim.
A maternidade não espera esse “pronto”. Ela chega no meio da vida acontecendo com rotina, trabalho, planos, expectativas e, de repente, tudo precisa ser reorganizado.
E essa reorganização não é só externa. Ela acontece por dentro também. No jeito de pensar, de sentir, de enxergar o que antes parecia tão certo.
Mesmo na gestação, quando a gente tenta se apoiar em exames, acompanhamentos e planos, já fica claro que nem tudo está nas nossas mãos. E foi nesse período que eu comecei a perceber isso de verdade.
Quando houve a possibilidade, em um primeiro momento de um possível diagnóstico e depois a confirmação da T21 do meu filho, ainda grávida, o chão não chegou a sumir, mas mudou de lugar.
Eu lembro de sair das consultas com a cabeça cheia e o coração apertado, tentando entender o que vinha pela frente e, ao mesmo tempo, sem conseguir organizar nada direito por dentro.
Vieram perguntas que eu nunca tinha me feito. Medos difíceis de explicar. Mas, em nenhum momento, foi sobre amar menos. Eu já amava meu filho desde o positivo. Isso nunca esteve em dúvida.
Devido à minha formação em psicologia e à minha prática na clínica infantil, eu tinha alguma noção do que era a T21. Ela era uma “conhecida” de forma geral.
Mas viver… é diferente. Era não saber como seria na prática, o que viria, como a nossa vida ia se organizar a partir dali.
E uma sensação constante de estar entrando em um território novo, sem referência de como caminhar dentro dele. A maternidade ainda tem isso, ela faz a gente esquecer de todo o nosso referencial.
Depois que ele nasceu, a realidade trouxe outras camadas. A internação na NEO, os cuidados, a atenção constante com a saúde, tudo exigia uma presença que não dava para adiar. Tinha dias em que o tempo parecia diferente. As horas dentro do hospital, a espera, o cansaço… tudo ganhava outro ritmo.
Não tinha muito espaço para idealizar. Era o que precisava ser feito, um dia de cada vez. E, mesmo assim, tinha momentos em que eu só queria pausar, mas não dava.
A maternidade atípica tem essa força de colocar a gente diante do que é concreto. Ela desmonta aquela ideia de controle. Mostra que planejamento ajuda, mas não sustenta tudo.
Existem caminhos que não foram escolhidos, mas que passam a fazer parte da nossa vida de um jeito profundo. E, no meio disso, a gente vai se reorganizando, às vezes, sem perceber, às vezes, no limite.
Eu precisei rever expectativas que, até então, pareciam naturais. Diminuir o ritmo das comparações. Aprender a olhar para o desenvolvimento do meu filho sem usar o outro como régua.
Também precisei aprender a respeitar o tempo dele. E, talvez mais difícil, o meu. Aceitar que eu também estava aprendendo. Que eu também ia me cansar.
Que nem sempre eu daria conta do jeito que eu imaginava.
Nem sempre é leve. Tem dias de cansaço, de dúvida, de sobrecarga. Tem dias silenciosos por dentro. E outros em que tudo parece demais. Mas também tem descobertas que eu não teria vivido de outro jeito.
Pequenas conquistas que ganham um tamanho diferente.
Momentos que ensinam mais do que qualquer plano que eu já tenha feito.
Um olhar, um avanço, uma resposta, coisas que, pra muita gente, podem passar despercebidas, mas que, pra mim, carregam um mundo inteiro.
Hoje, quando penso nessa ideia de estar pronta, ela já não faz tanto sentido. Porque a maternidade que eu vivo não se encaixa em preparo antecipado.
Ela se constrói no caminho.
Entre o que a gente imaginou e o que, de fato, acontece. Entre o que dá certo e o que precisa ser revisto. E, principalmente, naquilo que a gente aprende enquanto está vivendo.
Eu sigo aprendendo. Tem dias mais leves. Outros nem tanto.
Mas sigo.
Sem ter todas as respostas. Sem conseguir prever tudo. Mas com mais consciência de que nem tudo precisa estar sob controle para fazer sentido. E, de algum jeito, vai fazendo.
Por Pillar Freitas – @freitaspillar
Revisão: Bibianne Terra





