Aqui em casa, começou com coisas pequenas.
Muito pequenas.
Meu filho sempre teve o hábito de guardar “tesouros”.
Um carrinho esquecido no fundo da mochila.
Um galho encontrado no caminho da escola.
Uma folha que, pra mim, parecia igual a tantas outras —
mas que, pra ele, tinha alguma coisa especial.
No começo, confesso: eu não entendia.
Achava excesso.
Acúmulo.
Coisa sem importância.
“Pra que guardar isso?”, eu pensava.
Até perceber que, pra ele, não era “isso”.
Era significado.
Cada miudeza carregava uma história invisível.
Um momento.
Uma descoberta.
Um sentimento que ele ainda nem sabia nomear.
E foi observando esse jeito tão próprio de ver o mundo
que algo virou dentro de mim.
Talvez por ser designer,
acostumada a olhar com atenção para formas, detalhes e sentidos,
comecei a enxergar além do óbvio.
Passei a perceber que, assim como ele guarda suas pequenas coisas do lado de fora,
existem também miudezas que as crianças vão guardando por dentro.
E essas são ainda mais importantes.
São as primeiras sensações de quem elas são.
As primeiras vezes em que se sentem capazes.
Ou, às vezes, as primeiras dúvidas.
As palavras que escutam.
Os olhares que recebem.
Os silêncios que percebem.
Tudo vai sendo guardado.
E, aos poucos, vai construindo o mundo de dentro.
Foi aí que a minha forma de educar começou a mudar.
Porque entendi que não estou ajudando meu filho só a crescer.
Estou ajudando ele a preencher esse lugar interno.
Um lugar invisível, mas potente.
Então comecei a prestar mais atenção nas pequenas coisas.
Na forma como respondo quando ele erra.
No tom da minha voz quando estou cansada.
No jeito que acolho quando ele não sabe explicar o que sente.
Porque, ali, nas miudezas do dia a dia,
ele também está guardando coisas.
Guardando se pode sentir.
Se pode tentar de novo.
Se pode ser quem ele é.
E isso muda tudo.
Aqui em casa, as miudezas continuam existindo.
Os carrinhos espalhados.
Os galhos esquecidos em algum canto.
As folhas que aparecem dentro de bolsos improváveis.
Mas hoje, quando olho pra elas, vejo diferente.
Elas me lembram do que realmente importa.
Me lembram que crescer não é só aprender coisas novas.
É, principalmente, aprender o que fazer com o que se sente por dentro.
E que esse “dentro” começa a ser construído muito cedo.
Com cuidado.
Com presença.
Com intenção.
Não acerto sempre.
Na verdade, erro muitas vezes.
Mas hoje tento escolher melhor o que deixo ficar.
As palavras que digo.
Os silêncios que permito.
As pausas que crio.
Porque sei que tudo isso também vira memória.
Também vira semente.
E, um dia, vai florescer.
Talvez em forma de coragem.
Talvez em forma de calma.
Talvez em forma de alguém que acredita em si mesmo.
No fim das contas, foi meu filho, com suas pequenas coleções,
que me ensinou uma das coisas mais importantes da maternidade:
aquilo que parece pequeno…
é, na verdade, o que constrói tudo.
E é nessas miudezas: as de fora e, principalmente, as de dentro.
Que eu escolho acreditar todos os dias.
Por Re Ribeiro – @reribeirodesign_kids





