O fim do dia aproximava-se. Ama tinha saído apressada do trabalho para ir buscar a Clarisse ao infantário. Esta cantarolava alegremente uma nova música que tinha aprendido. Ama ouvia aquele som como se estivesse debaixo de água. Lançava um olhar para o retrovisor e, por um segundo, olhava para a Clarisse, num gesto automático, apenas para confirmar que estava tudo bem.
Ama costumava estar alegre, muitas vezes, acompanhava a Clarisse nas suas cantorias enquanto conduzia até em casa. Mas aquele fim de dia era diferente. A sua mente vagueava noutro lugar. A música da Clarisse e todos os barulhos externos chegavam aos ouvidos de Ama em altos e baixos. De vez em quando, despertava dos seus pensamentos e voltava ao mundo real… para ver se estava tudo bem.
Na sua mente, havia ecos de pedaços de conversas das reuniões que tivera ao longo do dia, mas especialmente de uma, com o seu superior. Ama tinha ansiado tanto por aquela reunião. Sabia que iria chegar. Preparou-se para demonstrar que era a pessoa ideal para o cargo, mas, ao mesmo tempo, sentia-se impotente. Ia aceitar uma promoção… mas quando o momento chegou, não aceitou.
Naquele fim de tarde, no meio de todos aqueles sons do quotidiano, por entre as cantorias alegres da Clarisse, Ama sentia-se estranha. Como se não soubesse quem era e o que queria. Lançava olhares automáticos para a Clarisse e sorria quando ela olhava. Às vezes, perguntava: — Estás bem, filha? Gosto muito da tua nova música.
Como sempre, antes de chegarem a casa, passaram na mercearia. Tinha de haver pão fresco para o jantar. Clarisse corria e saltava na calçada, seguindo os desenhos no chão. Ama pisou o pássaro sem querer… Clarisse puxou-a de imediato: — Mãe… pisaste o pássaro hoje, não podes!
Ama desligou-se dos seus pensamentos, sorriu e deu um passo atrás, refazendo o caminho, desta vez, sem passar em cima do pássaro. Riu alegremente para a Clarisse. Entraram na mercearia, cumprimentaram as pessoas do costume. Clarisse mostrou a sua bandolete, como sempre fazia. Compraram o pão.
Já em casa, Ama começou a preparar o jantar como se tivesse o tempo contado, entre os pedidos da Clarisse e os apelos do fogão.
— Mãe, dá-me uma folha para eu desenhar! — gritou Clarisse.
Ama pousou a colher de pau sobre a panela, foi rapidamente buscar uma folha, deixou-a na mesa pequena da Clarisse e voltou ao fogão, que já a chamava.
Enquanto mexia a panela, as costas e as pernas exigiam descanso. Todos os dias lhe pediam para parar, mas ainda havia muito a fazer. Pensava na reunião, na decisão que tinha tomado, e aquela sensação mantinha-se. Não estava exatamente triste, nem exatamente contente. Era como se tivesse feito o que estava certo, apesar de ter ido contra a sua vontade.
O jantar ficou pronto. Ama punha a mesa precisamente quando Alberto chegava do trabalho, depois de mais de 14 horas. Tinha sido assim nos últimos tempos.
— Pai… — disse Clarisse, correndo para ele.
Alberto, de rosto cansado, esboçou um sorriso aberto para a filha, mas logo se deixou cair num descanso silencioso.
— O jantar está na mesa, venham! — disse Ama.
Clarisse apareceu aos saltinhos e sentou-se, enquanto Ama lhe preparava o prato. De seguida, serviu Alberto, que se aproximava vagarosamente, com ar abatido. Ama abraçou o marido. Ele passou-lhe a mão pelo cabelo, como se aquele fosse o melhor momento de todo o dia.
A Clarisse já comia. Alberto sentava-se. Ama deu comida ao gato, que miava há algum tempo. Finalmente, sentou-se à mesa. Ficou por breves segundos imóvel, apenas a sentir a sensação maravilhosa de ter parado.
Os três conversavam sobre o dia, Clarisse dava gargalhadas altas. Mas Ama não falou da promoção. Havia ali uma espécie de vergonha revestida de orgulho que não sabia explicar. Alberto também não perguntava muito. Andava a trabalhar demasiado, embora por um motivo válido. Ainda assim, Ama, por vezes, sentia-se sozinha. Mas não queria sobrecarregá-lo. Tentava ser o suporte emocional, equilibrando as emoções de todos… incluindo as suas, em silêncio.
Alberto brincava com a Clarisse enquanto Ama levantava a mesa, colocava os pratos na máquina e arrumava a cozinha. Ouvia os gritos felizes da filha, que adorava aquela hora do fim do dia. Era a única em que podia brincar com o pai.
Ama estava cansada. A sua cabeça parecia um turbilhão de pensamentos e planeamentos, como um arquivo cheio de papéis por organizar. Queria deitar-se, fechar os olhos, pensar com calma sobre a decisão que tinha tomado… mas ainda não dava.
Alberto apareceu e lamentou o facto de não a conseguir ajudar. Abraçou-a e disse:
— Estou exausto… vou dormir.
Ama acenou. Já sabia.
Começou a preparar o dia seguinte, como sempre fazia. Clarisse voltou ao desenho.
— Mãe… estou a desenhar-te! — disse, contente.
Ama respondeu com entusiasmo, como se a sua energia fosse inesgotável… e, talvez, para Clarisse, fosse mesmo. Terminou os afazeres e foi ter com a filha. Abraçou-a, beijou-a. Estava cheia de saudades dela e finalmente podia estar ali, só ali.
O corpo e a mente pediam descanso. Mas, sempre que abraçava a Clarisse, surgia um pouco mais de energia.
— Então, mostra lá a arte que estás a fazer — disse, com carinho.
Clarisse agarrou no desenho e entregou-lho, entusiasmada, descrevendo-o pormenorizadamente:
— Esta aqui no meio és tu, gigante. Depois aqui ao lado sou eu, pequenina. Este é o pai, também pequeno. Este é o nosso gatinho fofinho. Aqui são flores e corações… e aqui é o sol, com raios que nos ligam todos a ti, mãe.
Ama sorria enternecida, de súbito, sentiu uma pontada nas costas por estar mal sentada. Encostou-se e puxou a Clarisse para junto de si, abraçando-a com força.
— Obrigada, filha… é muito bom saber que sou tão importante para vocês.
Ficou a olhar para o desenho por mais uns instantes.
Ali, em silêncio, tudo fez sentido.
Por Telma Mingacho – @mundo_metaeuforico
Revisão: Angélica Filha





