Uma mancha de sangue
e um chinelo havaianas caído,
solto no chão.
Foi a primeira coisa que eu vi,
antes mesmo de perceber
o amontoado de gente
na esquina de casa.
Eu saíra de casa
deixando o pequeno
na esquina da escola.
Virou para trás na porta,
o sorriso sonolento
me dando bom dia.
A mochila caída no ombro,
escondendo a bola
para eu não dar bronca.
E já no final da rua,
a luz amarela do ônibus
anunciando o início do dia.
Rodei a roleta
lembrando do dever de casa
amassado
em cima da mesa.
Amanhã teria bilhete,
era certo.
Acompanhei os carros
no sacudir do trânsito.
Sábado
ia comprar ovos.
— Qual bolo você quer
para seus anos?
— Chocolate,
era sempre a resposta.
Pisquei os olhos
e já era meio-dia.
Nem vi o dia passar.
O trabalho de sempre
nas costas.
Mas um silêncio frio
no meio da garganta,
sem saber por quê.
Na volta,
ônibus atrasado.
Mais uma blitz
na linha vermelha.
Acidente na Brasil.
Já eram quase nove
quando eu saltei.
Não era bem um pressentimento,
mas uma certeza
que levei o dia todo
no peito.
Ontem não teve operação.
Será que hoje teria?
Os meninos querendo soltar pipa,
esperando o primeiro dia de sol.
Pedi para esperar,
que as coisas estavam enroladas,
que estava tudo meio tumultuado
na vizinhança.
Eles já conseguiam entender
as palavras:
tiro,
morte.
Eu é que não conseguia falar.
Preferia dizer
que tinha confusão,
que esperassem
mais um dia.
Adivinhei antes de ver,
pelo rosto do seu Manoel
e pelo silêncio
que se fez no bar:
Era o meu.
Na esquina,
os vizinhos,
cabeças baixas, choravam.
Os meninos da rua,
sentados no meio-fio,
calados.
A pipa
na mão.
Em um segundo
estava lá:
o joelho no chão,
as mãos nele,
segurando no colo,
limpando o rosto.
Não sei quanto tempo
fiquei ali.
Até que ouvi
o barulho do carro
voltando.
Era um só,
com o fuzil cruzado
e um papel na mão
pra eu assinar.
Ouvi apenas duas palavras, absurdas:
antecedentes
e resistência.
Pensei nos ovos
para comprar.
No bolo
de chocolate.
Deixei o menino no chão.
Levantei.
O homem me apontou o carro.
Queria que fosse com ele.
Cheguei perto do carro.
O ouvido zumbia.
As mãos tremendo.
Adivinhei sem ver
a barra de ferro
no chão.
O homem virou de costas.
E daí
não levantou mais.
O silêncio se fez,
enquanto a poça vermelha
crescia no chão.
Meu menino.
Dez anos
no próximo sábado.
E nem ia sozinho à escola.
Larguei a barra de ferro,
tirei meu casaco,
cobri-o.
Deitei do seu lado,
ali no meio da rua.
Em algum lugar,
as sirenes vermelhas
se aproximavam,
cada vez mais.
Fechei os olhos.
Por Tatiane Mendes – @tatimendesphotografia





