A maternidade é, por definição, um estado de contradição constante. Um dia desses, a vida cabia na palma da mão; hoje, ela mal cabe nos braços e já reivindica o direito de tomar as próprias decisões, de questionar ordens e duvidar das explicações que antes eram aceitas sem ressalvas. Esse movimento de distanciamento, embora natural, dói na alma de quem orienta. O tempo é apressado, estica-nos num estalo e, de repente, nos vemos pedindo: “Não solta minha mão. Não ainda.” A verdade contida nesse apelo é que, talvez, quem precise mais desse toque sejamos nós, as mães, que ainda estamos tentando entender do que se trata essa nova identidade que nasceu no mesmo instante que o filho.
Antes da chegada da Rebecca, o mundo parecia um lugar de certezas. Eu tinha todas as respostas, o sono era solto e o medo era um conceito distante. Sabia-se, teoricamente, como se criavam filhos; tudo parecia simples sob a ótica de quem ainda não tinha o coração batendo fora do peito. No entanto, o nascimento dela trouxe o fim das respostas prontas. Onde havia sono, surgiram intervalos; onde havia coragem, brotou um temor constante pela segurança do outro; onde havia simplicidade, surgiram teorias complexas e a luta diária para não errar tanto. O crescimento dela forçou o meu próprio crescimento, revelando que a maternidade não é sobre ensinar, mas sobre aprender quem eu sou diante desse espelho de inocência.
Hoje, olho para a Rebecca e vejo o olhar misericordioso de Deus sobre a minha trajetória. Ela é a menina dos meus olhos, original, amável e sensível. É curioso como o ciclo se repete: ouvia minha mãe dizer que queria ser igual a mim quando crescesse, e hoje sou eu quem profere essas palavras para minha filha. Quero ser como ela quando eu crescer. Quero sua leveza, sua capacidade de ser natural em um mundo tão artificial. Enquanto ela ainda habita a infância, esse território de meninices e descobertas, sinto uma raiva passageira do tempo. Sei que a vida real, com suas dores inevitáveis, baterá à porta. Como mãe, coloco-me atrás dessa porta, tentando atrasar o momento em que ela descobrirá que a maior tristeza do mundo não é apenas ser proibida de dormir no quarto da mãe.
Nesse percurso, encontrei o peso das expectativas e a sombra da comparação. Ostento o título de mãe com orgulho, mas reconheço que é a tarefa mais difícil que já assumi. Tendo uma mãe tão presente e supridora, caí na armadilha de tentar ser igual, uma busca pela perfeição que culminou no pior: o encontro com a depressão. Essa dor nasceu da não aceitação das minhas próprias limitações, do desejo latente de oferecer a perfeição a quem eu tanto amo. Mas aprendi que, para a Rebecca ser feliz, ela não precisa de uma mãe impecável, mas de uma mãe feliz.
A aceitação das minhas falhas é o meu maior legado. Talvez ela não guarde a imagem de uma mãe “prendada” e perfeita, mas guardará a memória de uma mãe lutadora. Uma mãe que, embora por vezes se sinta perdida em meio a sombras, escolhe voltar à leveza todos os dias por ela. Estamos crescendo juntas, caminhando com o olhar para a frente, sem saber exatamente onde chegaremos. O que importa é que, nesse caminho, todos os dias eu aprendo um pouco e cresço um pouco mais. A Rebecca me salvou, e continua me salvando, ao me ensinar que o amor, no fim das contas, é o único guia seguro entre nossas perguntas e o infinito.
Por Marcela Lira Correia – @marcela.lira.correia





