Entre o medo e o amor

Fui mãe na adolescência. Tive meu primeiro filho aos dezessete anos e me casei, pois já namorávamos havia algum tempo, e também para ter acesso aos benefícios do trabalho dele, como o plano de saúde. Precisei interromper os estudos por um período. Naquele momento, confesso, não gostava muito da escola, mas bastou me afastar da rotina para sentir falta. A ausência do que antes parecia comum passou a pesar. Ainda assim, levei quase dez anos para voltar a estudar.

Por um tempo, minha vida se resumia aos cuidados com a casa e com o bebê. Meu marido trabalhava e assumia a parte financeira e, quando chegava, também ajudava nos cuidados. Acredito que essa seja a obrigação de todo pai, e ele sempre fez, e continua fazendo, a parte dele. Tudo aconteceu cedo demais. Entre uma fralda e outra, comecei a me aproximar dos livros. Lia e revisava matérias como português, matemática e história, tentando manter viva uma parte de mim que não queria ficar para trás.

Naquela época, sem a tecnologia de hoje, encontrei no Telecurso 2000 uma forma de continuar. Sentava-me em frente à televisão com um caderno e alguns livros, escrevendo, repetindo, tentando aprender. Fazia isso nas primeiras horas da manhã, enquanto meus filhos ainda dormiam. Mesmo cansada, eu insistia em reservar aquele tempo, como quem segura um fio fino de esperança.

Quando finalmente voltei à sala de aula pela EJA, trouxe comigo tudo o que a vida já tinha me ensinado. Concluí o ensino médio e, a partir dali, não parei mais. Vieram a faculdade, as pós-graduações e tantas outras conquistas. Meus filhos sempre foram minha maior motivação.

Não romantizo a maternidade. Acho que ela é difícil, por vezes solitária e cansativa. Ainda assim, ela me transformou e me trouxe medos que eu não conhecia. Quando segurei meu primeiro filho nos braços, tão pequeno e frágil, senti um medo profundo. Era uma vida inteira dependendo de mim. Pouco tempo depois, nasceu minha filha, e o sentimento se repetiu, como se o coração precisasse aprender tudo outra vez.

Naquele tempo, não era permitido acompanhante na maternidade. Meu marido ficou do lado de fora, andando de um lado para o outro. As enfermeiras comentavam que o corredor parecia pequeno para tanta inquietação. Ele só foi embora depois que nossa filha nasceu e teve certeza de que eu estava bem, já no quarto.

Hoje, meus filhos são adultos, têm suas formações e seguem seus próprios caminhos. Ainda assim, o amor que sinto por eles não cabe em palavras. É um sentimento intenso, que por vezes aperta o peito de preocupação. Foram eles que, sem saber, me moldaram e me transformaram na mulher e na mãe que sou hoje.

Por Andrea dos Santos – @andreasantos.escritora

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