Poesia – Somos

Hands raised in a gesture of strength and solidarity against a white background.

diziam à ela que não poderia,
que tampouco saberia
que escrever bonito era coisa de gente sabida.
a menina ouvia essas palavras doídas,
mas insistia em escutar seus pensamentos sonhados
uma professora regava seus pensamentos
e a ela repetia: siga!
e ela foi se arriscar.

ela entendeu que tinha um roteiro quando chegou nesse passeio
é roteiro forjado
sabe o que dizia?
feche as pernas

(e ainda nem entendia a mensagem)

estique o cabelo
embranqueça
raspe seus pelos
emagreça
pinte as unhas
trabalhe muito
mate suas crenças
enterre seus desejos
e continue trabalhando
e case
até a morte dos seus sonhos

roteiro forjado!
cuspa, rasgue, queime!

vivi uma parte dele
é do tipo que não se edita, nem se apaga

faz-se novas páginas
de cores fortes
de histórias libertas
de amores sublimes
de músicas vibrantes
de danças ancestrais
de autoria autêntica

de celebração
para um passeio majestoso

e a menina ainda ouve as vozes dos que não a querem
mas só escuta a sabedoria das suas mais velhas,
sente o sopro de Oyá e a força de Òsun.

ela é reinado.

SOMOS

moça, deixe que seu corpo dance
deixe que seus pensamentos se libertem do que já foi prisão
de tudo que já disseram para não fazer
que já disseram para não dizer
e inté para não pensar
busque os sonhos que já foram deixados para lá
moça, saiba que nasceu para brilhar – como, só você saberá!
quero que se presenteie
quero que se surpreenda
quero que se apaixone
que desfrute de um bom prosearĝ
quero que se interesse cada dia mais por você.

e venha sempre que precisar,
pegue um copo e vamos brindar!
sua alma pode ser samba

creio no seu canto
e nos seus delírios,
que também são meus.

SOMOS

agora consigo sonhar
e dia seguinte o pesadelo
posso ser quem quiser
fazer o que der
atravessar a linha da sobrevivência
e sair viva.
sei que lido com o ódio de quem não esperava
que eu passasse a essa travessia.
não querem que os limites colocados sejam atravessados
olho o ontem para mirar no hoje
como bem ensinado na profecia
daquelas que vieram antes e abriram caminhos
os passos deixaram vestígios que orientam,
já não estou só.

mas choro ainda pelos sonhos interrompidos
das que foram impedidas de sonhar comigo
me ergo e me (orí)ento por elas

combinamos de sonhar juntas,
prossigo
e todos os dias somos mortas
e todos os dias também morro
e todos os dias também vivo

vivo pela força que nos une
que em dias breves
NÃO SEREMOS MAIS INTERROMPIDAS

Luciana Janeiro Silva

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