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A construção da minha identidade enquanto mulher e negra aconteceu faz poucos anos, o processo de mestiçagem atingiu minha família de tal forma que ninguém reconhece sua negritude. Fui criada como “Morena”, obviamente, não sou branca, mas não sou tão preta assim, me chamam de “parda” como se eu fosse um papel, que não se assemelha em nada a minha cor.

Tenho os cabelos lisos, de minha ascendência paraguaia, e devido aos traços menos acentuados, sofro menos preconceito, o processo de branqueamento realmente funciona. Como eu não me reconhecia como negra, eu não compreendia as várias formas de racismo que eu sofria, e o racismo que havia em mim. Foi um processo longo e doloroso, que eu conto outro dia. 

Mas quando eu gerei um menino branco, eu passei a enxergar melhor e a sentir mais. Quando ele era mais novo eu era a babá, hoje me perguntam se sou a irmã, a tia, mas nunca a mãe, esse fato o incomoda bastante, eu sou a mãe dele, e ele quer que me reconheçam como a mãe, ele sempre corrige quem faz esse tipo de pergunta, hoje com menos paciência, porque sempre se repete, agora imagina como me sinto.

Quando ele sai com o pai, que é branco, ele sente a diferença, quando entramos em lojas as pessoas geralmente não me atendem, com o pai é completamente diferente. Já fui em reunião com a coordenadora pedagógica da escola na qual o pai falou primeiro, porque estava muito mais nervoso com a situação e quando eu comecei a falar, fui interrompida, e questionada se era a mãe da criança. Quando respondi que sim, ela disse que achava que eu era só a namorada do pai, porque eu não parecia ser a mãe dele.

Diante de tudo que passamos, sempre digo a ele que ele deve usar todo o privilégio que ele tem, para defender as atrocidades que vemos, que não é normal nem aceitável as pessoas não atenderem a mim ou a qualquer pessoa, fazer juízo de valor sem conhecer ou tirar conclusões precipitadas pela cor da pele. 

Ele sente o racismo que respinga em mim, e dia após dia tenho ganhado um aliado na luta pela causa, ele tão novo já sabe respeitar um lugar de fala, mas não se cala por não estar falando dele, pois, não precisa ser negro para ser contra o racismo.

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