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A importância dos filhos jovens na ressignificação psíquica do adulto: narrativas terapêuticas

Eu tinha 38 anos quando vivenciei a primeira crise de pânico. De imediato, ocorreu uma produção química cerebral que ataca o organismo por completo, que gerou medo e perda de identidade comigo, com os outros e com os lugares postos.

Já tinha vivido precipícios existenciais ao longo de minha trajetória em vida. Nada foi suave em minha caminhada.

Vim do Ceará bem criança para o estado do Espírito Santo (ES). Sofri preconceitos por conta das imagens divulgadas pela televisão – principalmente mídia nos anos de 1980 no Brasil – sobre a seca do sertão nordestino.

O sotaque cantado de minha mãe, pai, avó e tios, além dos nomes diferentes para designar coisas e verbos, eram motivos de chacota.

Alguns, de modo desumano, perguntavam se eu e minha família tinham comido cacto no agreste por fome. Ou até, se passamos sede e tantas outras coisas parecidas, como nas notícias divulgadas de forma sensacionalista pelo programa Globo Repórter, durante as noites de sextas‐feiras, dos anos 80.

Defendo a ideia por meio de minha experiência de que esse programa reforçou por muito o hiato social entre o Nordeste e Sudeste brasileiro. A partir da constituição social de uma balança de poder entre os outsiders nordestinos e os estabelecidos do sul.

Os efeitos desse discurso foram sentidos nos meus 4 anos. Em pleno período de formação de minha individuação, que envolve autoestima, identidade com a comunidade, família, e tantas outras dimensões psicológicas.

Vale ressaltar que fui uma criança muito conectada com a realidade externa, essa que influenciou meu estado interno individual em desenvolvimento.

Com todos os estereótipos sentidos em minha carne, já sentia uma melancolia ou uma baixa autoestima quando percebia que era diferente das demais crianças de contextos mais favoráveis.

É sabido que essa lógica social pode afetar e não determinar. No entanto, problematizamos: como era para uma criança nordestina, que estava num estado do Sudeste, assistir aquelas reportagens? Como as crianças do Sudeste e Sul, viam às outras crianças com suas famílias nordestinas adentrarem o seu território?

Isso é tão forte para mim que sempre escondi de forma sútil minha origem, pois havia outros preconceitos para vencer: o de camada popular, o de ser menina junto de minha família, com a chegada do tão sonhado menino.

Fase da educação

Toda a minha formação na educação fundamental foi realizada numa escola pública de meu bairro popular. Era o único lugar de acesso à cultura letrada.

Hoje, percebo que eu e a minha geração apresentam marcas em seus corpos e mentes, com aquele processo de desmonte do sistema público educacional, produzido pela política dos generais brasileiros.

Mas venci as barreiras sociais. Estudei muito, mediante a realização de especializações no modo Lato Sensu e Stricto Sensu (mestrado e doutorado), paralelo ao exercício da docência. 

Com toda essa trajetória acadêmica e profissional e na idade dos 38 anos, me deparava com uma sensação nunca antes vivida, o pânico. Estava numa sala de reunião com uma pedagoga e mais um outro professor para resolver a questão da escolha do livro didático.

A cada frase dita de forma alta e autoritária daquele professor, uma sensação psíquica de desespero incontrolável, durante e após o fato, poderia ter sido fatal. Não há exagero nisso, os abismos sempre atraem outros maiores.

Minha saúde mental

Sempre, em nome da reputação pessoal e profissional, me permiti ser levada ao matadouro dos pensares, dos dizeres e dos fazeres. Eu só não sabia que esse tipo de morte cresce. Ocupa tudo. E depois vem acompanhada da depressão, síndrome de pânico, ansiedade generalizada e se materializa numa Síndrome, a de Burnout.

Todos os dias acordava desejando a morte. Dava aula e voltava para cama. Dava aula e chorava no banheiro das professoras.

Uma sensação constante de solidão e de tristeza que culminava com a alteração no apetite e dores diárias no estômago. Meu isolamento social, como forma de proteção individual, culminou em dificuldades com a higiene pessoal, como o dilema do banho.

Já não me tocava mais. Já não lavava o cabelo com frequência. Precisei da ajuda dos familiares, sobretudo do  meu filho de 18 anos que ficava comigo, enquanto o meu companheiro trabalhava.

Lembro de uma noite de uma quinta-feira, no início da pandemia, cercada de meus obstáculos individuais para dormir quando, meu filho, disse mais ou menos isso:

“Minha velha (termo de carinho adotado por ele) tudo está melhorando. Até lhe compreendo melhor. Suas narrativas corajosas conseguiram quebrar minha racionalidade cega diante das dores psiquiátricas das pessoas.

Entendo melhor seus choros, seus períodos prolongados de caverna existencial, de escrita solitária e da sua capacidade diária de insistir com a vida, mesmo quando o corpo e alma desejam o contrário.

Vejo com mais frequência tanta gente com depressão e outros sintomas próximos do meu círculo de amizade, mas você estuda a temática, se aprofunda e continua querendo alcançar outros corações. Tenho orgulho de você, de suas memórias e de ser seu filho”.

Em sequência, oramos pelo sagrado que em nós habita de forma plural e agradeci pela companhia do amor de um filho.

Depois disso, escrevi uma carta para ele e sua geração, a saber:

“Meu querido filho e jovens brasileiros, vocês podem mudar e transmutar os valores conservadores, preconceituosos e hipócritas que crescem no mundo. Lutem para serem vocês, autênticos, sagrados com suas perspectivas atreladas à sua autoestima, ao senso de humor, regados com a força da justiça com os descalçados e desalmados. 

Sejam vocês de verdade, questionem o preço das pessoas, não se deprimam com as redes sociais inflacionadas de ostentação e luxúria. Busquem a alegria nas pequenas coisas, na gratuidade da natureza, nos sons musicais, nas danças coletivas e no amor verdadeiro. 

Em suas profissões relacionem salários com o trabalho social e voluntário, com o bem dos mais pobres, dos encarcerados, das viúvas, dos órfãos, dos usuários de drogas e das mulheres vítimas da violência urbana e rural, dos doentes mentais e dos velhos improdutivos do capitalismo selvagem. 

Filho, eu estou aqui para lhe amar, perdoar, emprestar o meu olhar sobre a vida dos que nasceram na década de 1970. Falar sobre nossas leituras, músicas, filmes e shows teatrais, e toda arte livre das amarras sociais. Vamos exaltar a arte da audição, do sentar, do observar e minimizar as verdades ditadas pelos pseudoseres das instituições e das autoridades eleitas pela democracia em vertigem representativa”. 

Meu filho leu a mensagem e me pediu para que continuasse a escrever meus escritos terapêuticos. Segundo ele, os filhos precisam ter acesso às fragilidades de seus pais. Isso fortalece a travessia familiar e aprofunda o mapa da sabedoria humana.

Segui seu conselho e publiquei o meu livro “A beira do berro: cem escritas terapêuticas por Tiana” em formato eBook. Para isso, ampliei a minha identidade por meio de uma personagem em pano, com o formato de boneca, criada pela artista Ana Cristina Abreu Frizzera, mãe do meu aluno Henrique.

Como nasci no 20 de janeiro, dia de São Sebastião, e quase fui nomeada de Sebastiana, logo, entendi que a boneca tinha que ser Tiana.

Como o sofrimento tem um modo de falar de si, construí nela, um alter‐ego, meu Eu Maior. Tiana tanto me representa, quanto representa as diversas mulheres, mães e professoras com suas jornadas triplas, famintas de alegrias e de ócios.

Tiana grita em suas narrativas, com a seguinte máxima: não é vergonha viver em aflição. Reparta a sua dor com seus filhos. Crie uma oportunidade de socorro!


Autora: Deane Monteiro Vieira Costa (pseudônimo Tiana), mãe do Rafael, historiadora, professora doutora e poetisa social de si que abusa da primeira pessoa do singular para construir as suas poesias terapêuticas. Seus livros podem ser adquiridos no link da bio @dor_arte_profa.

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