Ato de suspender a amamentação: é assim que o termo “desmame” aparece no dicionário. A definição, no entanto, parece rasa, pois “suspensão” remete a algo que pode ser rápido ou abrupto e quem é mãe sabe que desmamar não é o mesmo que “desligar um botão”. “Tão importante quanto o estabelecimento da amamentação é a sua conclusão, que aponta para o fim de uma modalidade de se relacionar com a criança (ou com o bebê)”, reflete a psicanalista Ana Suy no prefácio de “Exaustão não é amor”, livro de autoria da especialista em cuidado materno-infantil, Cris Machado. Com o fim dessa fase, nasce outro modo de vínculo, de um amor que não se localiza no leite, mas no sentimento que se vive com o corpo todo e reverbera no uso das palavras.
A amamentação, assim como o posterior desmame, devem ser respeitados como processos que só dizem respeito à mãe e ao filho. Imagina ter que iniciar uma nova etapa no relacionamento com a criança e, de repente, precisar lidar com julgamentos externos? A vida da mãe é um eterno adaptar-se a novas exigências e faz-se essencial sentir-se empoderada ao ponto de criar um filtro contra o que os outros acham que seja melhor para nós. Ao mesmo tempo, aquilo que pensamos que era o mais adequado, pode “cair por terra” quando a maternidade se concretiza.
Eu, por exemplo, assim como ocorreu com outras mães com quem conversei, tinha uma visão simplista sobre o fim do aleitamento quando engravidei. Achava que sozinha decidiria quando tirar o peito. Ledo engano…Quando meu filho nasceu, as decisões passaram a ser pautadas pela relação que se estabeleceu, e não mais por mim como ser individual.
Mesmo com a orientação da Organização Mundial de Saúde (OMS) de prolongar o aleitamento materno até dois anos ou mais, pensava que só iria dar de mamar até o pequeno completar seis meses. O que eu não previ foi que eu me sentiria muito bem com a troca via amamentação e que meu filho iria gostar muito do “leitinho da mamãe”. Ficamos nessa fase até ele fazer dois anos e 10 meses. Foi um tempo bonito, que deixou lembranças, mas também marcado por momentos de intenso cansaço.
Exaustão
A privação do sono à noite é um dos pilares que levam as mães a optar por iniciar o desmame. Foi o que ocorreu com a produtora audiovisual, Nay Araujo, 41 anos. “Uma das questões que me fez ansiar o desmame, foi a ‘liberdade’. Desde que a L. (inicial da criança) havia nascido, não tinha conseguido dormir uma única noite inteira, porque ela pedia para mamar muitas vezes na madrugada. Além disso, o fato de ela querer sempre mamar, me impedia de viajar para compromissos profissionais sozinha”, explica.
Com 2 anos e 8 meses, a menina apresentou sinais de que não queria mais mamar. Nay Araujo revela que foi de repente. “Acho que a principal dica é seguir a intuição e prestar atenção nos sinais do seu filho. As crianças são muito sensíveis e percebem mais coisas do que pensamos”, deixa a dica.
No caso da funcionária pública Luara Maranhão, 43 anos, mãe do Gil de 3 anos e 4 meses, a opção pelo desmame também foi pautada pela exaustão. Ela escolheu fazer o processo de forma gradual, sempre com o apoio do seu companheiro e pai da criança. “Foi uma decisão minha, porque já não estava me fazendo bem. Até então, eu me sentia um pouco apreensiva em fazer o desmame noturno porque as experiências que eu conhecia sempre eram, na minha percepção, radicais, com a mãe ficando longe em um quarto e a criança acordada querendo mamar, sendo consolada por um cuidador em outro cômodo (…). Com 21 meses, meu filho já tinha condições de entender muita coisa. Assim, fui explicando que à noite é importante a gente dormir. E que, mesmo acordando do sono, poderia ter o colinho, beijinhos e amor da mamãe”, detalha.
De acordo com a especialista em cuidado materno-infantil, Cris Machado, entre o ativismo da amamentação, que prega a livre demanda para sempre, e o desmame abrupto, pode existir um caminho do meio. A autora defende a amamentação como um banquinho de três pés que sustenta o bebê/criança: um é vê-lo como alimento, outro como conforto e, um terceiro, como comunicação.
Para um desmame gradual respeitoso, ou seja, para que o bebê não “caia” do banquinho, é necessário substituir cada preenchimento dos pés aos poucos, defende. “À medida que a alimentação avança, vamos deixando a ‘amamentação-alimento’. O conforto dado no seio vai sendo ofertado no abraço, no embalo e, aos poucos, com o avanço da comunicação e da linguagem, traduzimos os pedidos do ‘mamá’ que podem significar tédio, fome, sono, frio e calor, medo e felicidade”, avalia.
Luara Maranhão enfatiza que teve o privilégio de receber apoio no processo e condições financeiras para procurar uma consultora de amamentação. “Pude comprar também uma boa bomba de extração de leite e material de armazenamento, o que não é barato. Infelizmente, essa não é a realidade de muitas mulheres. Várias deixam de amamentar por falta de apoio e de recursos”, critica.
A escolha por um desmame gradual nem sempre faz-se possível, sendo que o fim da amamentação de forma repentina tem relação com a pequena ou nula rede de apoio. “Deveria existir uma política pública de auxílio à amamentação mais eficaz, incentivos para compra de bombas extratoras de leite e obrigatoriedade de haver salas de amamentação nos ambientes de trabalho”, enfatiza Luara.
Mãe exausta significa falha da aldeia que é necessária para criar uma criança. “O desmame mexe com o emocional e com o fisiológico e parar de amamentar pode causar choro e sensação de luto na lactante”, diz Cris Machado. Imagina realizar esse processo sem conhecimento e ajuda adequados? Desmamar não é desamar. É um momento marcante do desenvolvimento infantil e da relação da dupla mãe e filho e merece tanto afeto e carinho como o início do aleitamento.
Por Ticiana de Castro – @maternidadeimigrantept
Revisão: Angélica Filha





