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Quando está grávida, a mulher pode até planejar tudo certinho, mas ninguém pode prever exatamente como será a amamentação do seu bebê.

Tem gente que quer muito e não consegue. Tem mulher que simplesmente não quer. Tem mãe que tem muito leite e consegue até doar. Outras mães amamentam por alguns meses e logo param (por vários motivos), enquanto algumas vão até os dois anos, ou mais, dos filhotes.

Eu sempre quis amamentar, mas confesso que não tinha muita neurose com isso, caso não conseguisse. Só que depois de ter passado por esta experiência com minha filha Eduarda, vi que nasci pra isso! Sério. É um negócio tão bom, tão maravilhoso, que deu tão certo pra nós duas durante 1 ano e 10 meses, que eu só tive motivos pra celebrar cada mamada. Foi realmente incrível.

Mas eu lembro como se fosse hoje do curso de gestante que eu fiz na empresa onde trabalhava quando estava grávida, do dia em que a enfermeira foi explicar sobre a amamentação no retorno ao trabalho.

Junto com a responsável pelo RH, ela explicou que após os 4 meses da licença maternidade (sim, só quatro meses) seria a hora de retornar ao trabalho para darmos conta de criar nossos filhos. E se a gente estivesse ainda amamentando e quisesse continuar, o recomendado seria irmos ao banheiro algumas vezes durante o expediente para tirarmos leite e o jogarmos fora, na pia. Ela explicou que isso poderia ser feito com alguma bombinha apropriada ou até mesmo com as mãos.

O importante era mantermos as mamas estimuladas para conseguirmos amamentar nossos filhos quando estivéssemos em casa.

Outro ponto que o RH destacou era sobre a 1 hora por dia a qual teríamos direito, podendo chegar mais tarde ou sair mais cedo, até o bebê completar os primeiros 6 meses de vida.

Eu levantei a mão e questionei se poderia usar essa 1 hora somada ao meu horário de almoço, pois faria mais sentido amamentar minha filha no meio do dia. Lembro que a pessoa do RH não gostou muito desta minha “ideia”, já que o que eles recomendavam para o melhor andamento do trabalho era a funcionária chegar uma hora mais tarde ou sair uma hora mais cedo. Assim ficava mais organizado.

(Mais organizado pra quem? Para o bebê faminto, com certeza não era.)

Na sala eu fazia o curso com umas 40 gestantes, mais ou menos, todas trabalhavam em loja e apenas eu era do administrativo e me disseram que essa questão de usar a 1 hora no meio do dia poderia ser mais fácil pra mim, que tinha carro, morava mais perto do escritório ou que poderia ter alguém trazendo minha filha até mim.

Detalhe: eu andava de ônibus e morava longe do trabalho, mas estava sendo tratada como uma “privilegiada” por trabalhar no escritório e estar dando ideias ousadas demais para as colegas das lojas, pessoas mais simples do que eu, com menos instrução.

Nossa, me senti tão mal com aquilo tudo, sabe?

Primeiro me vi naquela cena: eu trabalhando o dia todo naquela loucura que era a minha função de coordenadora de marketing, com mil reuniões desnecessárias, um chefe tóxico e tendo que ir a um banheiro sem estrutura, pequeno, com portas quebradas e sem privacidade alguma espremendo meus peitos para tirar o rico leite da minha filha e jogá-lo fora. Sim, jogá-lo fora, pois não havia copa e geladeira disponíveis para eu coletar e guardar o leite.

Num segundo momento eu me questionei: como será deixar minha filha de 4 meses numa creche e correr o risco de encerrar a amamentação dela precocemente por causa do nosso distanciamento durante 12 horas por dia?

É verdade que eu já não estava feliz naquela empresa, não nego, mas lembro que aquela cena do banheiro vindo à minha cabeça foi a gota d’água, ou melhor, a gota de leite que faltava para eu decidir que não voltaria após a licença.

Sei que sou, sim, uma privilegiada por ter tido condições de sair de um emprego com carteira assinada e me dar ao luxo de ficar em casa com minha filha por um tempo até retomar minha vida profissional.

Me organizei pra isso, guardei meu dinheirinho, sempre fui econômica, mas tenho consciência de que mesmo querendo e se organizando muito, a maioria das mães não pode nem pensar nesta possibilidade e volta ao trabalho após 4 meses, mesmo não querendo isso, mesmo não gostando de seu emprego. Essa é uma realidade.

Ainda assim, você pode estar pensando que eu estou com uma visão muito romântica disso tudo e me apegando a um detalhe, quando o que está em jogo é o emprego de uma mãe de família (muitas vezes solo) em um Brasil de milhões de desempregados.

Você tem todo o direito de pensar assim, mas eu sou uma otimista e romântica incorrigível e não deixo de pensar (de sonhar) como as coisas poderiam, SIM, ser diferentes e melhores pra todo mundo.

Que bom seria se todas as empresas aumentassem a licença maternidade para, no mínimo, 6 meses.

Que bom seria se as mães não precisassem abrir mão de suas carreiras simplesmente por decidirem alimentar da melhor forma seus filhos. Ou que não precisassem abrir mão de amamentar para seguirem em seus empregos.

Escolha cruel essa, não?

Acredito que muito pode ser feito nas empresas para receberem com mais dignidade, respeito e acolhimento as mães após a licença. Uma geladeira adequada, um local para amamentação ou coleta do leite, uma creche dentro da empresa ou próxima a ela, horários mais flexíveis, opção de trabalho híbrido nos primeiros meses após o retorno e por aí vai.

Que tal formarem uma comissão para discutirem soluções com a ajuda das próprias funcionárias? Podem surgir muitos caminhos possíveis.

Mas ter sua funcionária espremendo os peitos e deixando escorrer pelo ralo da pia da firma o seu precioso leite materno, enquanto uma colega escova os dentes e a outra faz xixi, com certeza passa longe de ser uma boa opção, para as mães e para a empresa.

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