As demandas não batem à porta; elas já entram com a chave reserva. Elas pegam a senha de prioridade antes mesmo de o dia amanhecer, e o grande enigma da existência feminina é que nunca sabemos em qual guichê seremos chamadas, nem qual a gravidade da urgência. Alta, média ou baixa? Não importa. Na vida de uma mulher, a categoria “para ontem” é um eufemismo. Para nós, tudo é sempre para anteontem.
A maternidade se materializa na fatídica cartolina branca solicitada num domingo, às nove da noite, para ser entregue na segunda-feira, às sete da manhã. Ali, o corpo não é mais seu; ele é um braço logístico, uma extensão da papelaria que deveria estar aberta, um operário do impossível. A cartolina é o símbolo de como o mundo confisca o nosso tempo de repouso sem pedir licença.
Enquanto tentamos equilibrar a cartolina e as expectativas, somos bombardeadas por frases: “descanse”, ”se cuidar é um ato de amor”, “priorize-se”. São mantras lindos em fontes elegantes, mas que não sobrevivem a cinco minutos de vida real. No final do dia, o corpo desaba, exausto, sem que consigamos sequer rastrear o caminho da fadiga. O cérebro de uma mãe não funciona em listas lineares; ele opera em fractais. Você começa o dia com o item 1.1.1 (fazer o café), mas, antes da água ferver, algo se insere e vira o 1.1.2.1 (a geladeira que amanheceu fazendo um barulho estranho). Onde colocar o desejo de uma lista que termine com um ponto final, e não com uma reticência?
A crueldade se intensifica quando a lista de tarefas domésticas e profissionais colide com a lista de “cuidados básicos”. Somos cobradas a manter o corpo em alta performance, como se fôssemos máquinas: se exercitar, comer salada, incluir frutas, beber dois litros de água, dar os onipresentes 10.000 passos. E, se você cometer o erro de ligar a televisão ou abrir uma rede social, encontrará o algoritmo da perfeição personificado em alguém que acordou às 4h da manhã e perguntou: “qual é a sua desculpa para não se cuidar hoje?”.
Vejo aquilo descabelada. O café nas mãos já está frio, mas é a única coisa que me mantém de pé enquanto seguro o maço de senhas de prioridade que não para de crescer. A minha resposta mental é imediata, ácida e necessária: eu sou mulher, eu sou pobre e existe um buraco infinito de onde saem essas senhas. Não é uma desculpa; é a estrutura que me consome. O buraco infinito é o sistema que pressupõe que o tempo da mulher é elástico e que o corpo da mãe é inquebrável.
O meu corpo é um terminal de atendimento de urgências. É o lugar onde a geladeira quebrada e o choro do pesadelo da filha se encontram. Deitar na cama sem pensar nos afazeres do dia seguinte é um sonho mais distante do que qualquer viagem de luxo. O descanso é o intervalo entre uma senha e outra, o breve instante antes do próximo chamado.
E, quando tento fechar os olhos por um segundo, a primeira senha do novo ciclo é anunciada. É uma voz pequena, vinda do corredor, carregada de uma necessidade que não pode esperar a maré baixar:
“Mãe…”
O buraco infinito acaba de cuspir mais uma prioridade. E eu, como todas as outras, me levanto para atendê-la.
Por Carla Pepe – @carla.pepe75
Revisão: Angélica Filha





