Angélica

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Nasceu assombrada pelo nome.

Tentou, durante a vida, fazer justiça à escolha feita pelo amor materno. Criança angelical. Adolescente temerosa das paixões. Adulta recatada. Fervorosa. Resistiu o quanto pode às provocações libidinais do mundo e da mente.

Os amigos na escola, quando ouviram a mãe chamando-a de anja, logo descobriram uma provocação mortificadora para aquela menina tão encolhida. No verso ingênuo, o prenúncio de um outro retrato possível:

Anja, anja. cara de laranja, tem chifrinhos debaixo da franja. Quanto mais reclamava, mais a troça crescia.  Acentuou seu recolhimento.

A descoberta do sexo veio acompanhada de intensa vergonha. O calor que a invadia pintava de vermelho o rosto e o peito. À noite, nos sonhos, o vermelho contornava os lábios e as unhas. Via-se despindo as roupas, circulando nua pelas ruas, atraindo olhares lascivos, espiando casais em transas ruidosas.

Acordava inquieta, afogueada. Demorava a recuperar os efeitos daquela excitação noturna, mas isso não impedia a espera ansiosa da noite seguinte.

Construiu para si uma vida dupla. Durante o dia, mulher beata. À noite, nos sonhos, mulher da vida, submetida a todos os gozos propostos por companheiros imaginários.

A pretensa harmonia foi quebrada pelo AVC da mãe. Sem recuperação, passou o resto da vida acamada e demandando da filha proteção angelical. Angélica foi se ajustando ao pedido. Até os sonhos desapareceram.

Da mãe ouvia apenas, esporadicamente, murmúrios que confirmavam seu lugar de reconhecimento: annnn…ja…ja.  Angelica, por outro lado, falava sem parar, preenchia as falas maternas ausentes, descrevendo tudo que acontecia ao redor.

O pai aceitou a exclusão. Foi se afastando e deixando tudo aos cuidados da filha. Nem perceberam quando passou a dormir fora de casa. Tornou-se visitante dos fins de semana.

Angélica tinha quase 50 anos quando a mãe se despediu da vida.  Olhou para ela, suspirou, murmurou Annn…jaaa… e se foi. A filha também suspirou. De dor? De alívio?

Passou tempos desfazendo-se das coisas da casa.  Deixou para o fim um livrinho e o terço da primeira comunhão. Levou-os à igreja e abandonou-os na pia de batismo. Ajoelhou-se diante do altar e fez uma prece. Não era bem uma prece; era uma determinação:

– Senhor, livra-me deste destino. Traz-me de volta o vermelho e o calor da vida.

Levantou-se e virou as costas para o Cristo.

Enquanto atravessava o corredor que dava para a porta da saída, foi tirando a roupa que encobria a beleza de seu corpo.

Quando abriu a porta já era outra. Não mais Angélica.

Mulher. Simplesmente.

Por M Laurinda R Sousa – @mlausousa

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