O homem que comoveu a morte

Aquele não era um homem comum, definitivamente não era. Assim pensou a Morte, que o observava na hora derradeira de sua partida. Até ela se sentia comovida e procurava conformar-se de que já tinha chegado ao fim a jornada do homem.

Ela o conhecia bem, de longa data. Sabia que, desta vez, devia cumprir seu trabalho. Afinal, sua reputação estava em jogo. A impiedosa, aquela de quem ninguém foge, já havia dado mais de uma chance do homem seguir, e agora era o dia D.

No dia do nascimento dele, lá estava ela, parada, esperando para levá-lo. Era frágil demais, passava por um parto muito difícil, no interior, numa zona rural em condições precárias para o nascimento de uma criança. Muitas eram as orações para que sua vida fosse salva, mas, mesmo assim, a Morte sabia que de nada adiantaria. Já estava lá, à espera do momento de tomá-lo nos braços.

Eis que, quando ela se preparava para pegá-lo, o pequeno bebê nasceu com os olhos arregalados e olhou fixamente para ela. Mesmo ela tendo visto várias vezes aquele olhar em suas vítimas, aqueles olhinhos a comoveram de tal forma que ela desistiu de sua missão.

E assim o pequeno menino foi crescendo, sendo, porém, observado pela Morte. Ela ficou obcecada por aquele ser. Não entendia o que havia nele que a afastava do seu ofício.

Certa vez, o menino teve uma pneumonia fortíssima, beirando um quadro irreversível da doença, segundo os médicos da época. Porém, a Morte ficou lá, estática, torcendo para que forças maiores o ajudassem, para ela não ter que fazer seu trabalho. E, como milagre, o menino recuperou-se, deixando a Morte quase aliviada.

O menino cresceu e virou um rapaz. Era um apaixonado pela vida. Fazia tudo o que tinha vontade. Parecia sentir que tinha uma observadora à sua espreita. Ele fez amizades. Era um amigo fiel e alegre, animava qualquer ambiente. Apaixonou-se por uma bela moça, casou, teve filhos e vivia feliz. Era como se ele tivesse pressa para sentir todas as emoções intensamente.

No entanto, o destino pregava suas armadilhas. Num rodeio, enquanto praticava um dos seus hobbies, que era andar a cavalo, seu cavalo de estimação assustou-se e o arremessou.

Por um instante, só se ouviu o estrondo do corpo do homem caindo ao chão. Algumas pessoas murmuravam:

— Da forma que ele caiu, só pode ter morrido. Não tem como ter sobrevivido.

A Morte, que continuava sua estranha obsessão pelo homem, aproximou-se e, mais uma vez, titubeou. Grande foi a surpresa de todos quando o homem se mexeu. Outra vez, ele se recuperou e parecia que sua ânsia de viver só aumentava.

Contudo, chegou o dia. Ainda no leito do hospital, o homem, mesmo mal, num quadro irreversível, falou à sua esposa:

— A vida é boa, é só saber viver!

Nesse momento, até a Morte sofreu para cumprir sua missão. E, enfim, entendeu o que tanto a fascinava naquele ser.

Os dois tinham vontade de viver!

Cris Amaral – Instagram: @escritoracrisamaral

Revisão: Kátia Dias

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