Carta às mães de filhos “adultecentes”

Querida mãe,
Talvez ninguém tenha te contado que existe uma fase da maternidade em que você começa a sentir saudade de alguém que ainda está sentado à mesa com você.
Ele ainda mora na sua casa, mas pode ser que esteja planejando sair. Ainda deixa a toalha molhada em cima da cama, esquece copos pela sala, pede dinheiro emprestado e, vez ou outra, grita seu nome do outro cômodo para perguntar onde está alguma coisa que provavelmente está exatamente onde sempre esteve.
Mas alguma coisa mudou.
Seu filho cresceu.
É uma fase curiosa. Um misto de sensação de dever cumprido e ninho vazio mesmo que eles ainda estejam aí.
Você passa anos ensinando aquela criança a andar e, quando ela finalmente aprende a caminhar sozinha, descobre que parte de você gostaria de segurá-la pela mão mais uma vez.
E talvez essa seja uma das tarefas mais difíceis da maternidade: perceber que amar alguém também significa suportar que ele faça escolhas que você não faria.
Que erre.
Que se decepcione.
Que escolha pessoas que você não escolheria.
Que tenha opiniões diferentes das suas.
Que construa uma vida que não seja exatamente aquela que você imaginou.
E saber que, a você, só resta torcer para que os erros não sejam irreversíveis.
Porque existe uma coisa sobre os filhos que precisamos admitir, ainda que baixinho:
nós os criamos com sonhos que eram nossos também.
Antes mesmo de chegarem, construímos pequenas histórias sobre o futuro deles.
Então eles crescem.
E começam a escrever a própria história.
E talvez seja justamente aí que algumas mães sintam uma espécie de luto.
Não necessariamente porque perderam o filho, mas porque perderam algumas versões dele.
Agora existe alguém diante de você que pode dizer:
“Eu resolvo”.
E você precisa aprender que essa frase não significa necessariamente “eu não preciso de você”.
Às vezes, significa apenas:
“Eu estou crescendo”.
Talvez a grande tarefa dessa fase não seja aprender a deixar os filhos irem.
Talvez seja aprender a permanecer.
Permanecer sem invadir.
Permanecer sem controlar.
Permanecer disponível sem transformar disponibilidade em vigilância.
Permanecer como casa, sem exigir que eles voltem para dentro dela o tempo inteiro.
Porque talvez maternidade, nessa etapa, seja menos sobre conduzir e mais sobre testemunhar.
Você já segurou sua mão para atravessar a rua.
Já ensinou e aprendeu muitas coisas e tentou proteger de dores que, muitas vezes, só poderiam ser aprendidas vivendo.
Agora talvez seu trabalho seja outro.
Escutar quando ele quiser falar.
Respeitar quando ele quiser silêncio.
Perguntar sem transformar toda pergunta em interrogatório.
Oferecer colo sem transformar o colo em cobrança.
E, principalmente, lembrar que seu filho adulto não precisa mais de uma mãe que tenha todas as respostas.
Ele precisa saber que existe alguém com quem pode voltar quando as respostas acabarem.
E você também precisa aprender a voltar para si.
Porque existe um perigo silencioso nessa fase: continuar sendo tão necessária que você esqueça quem é quando não está cuidando de alguém.
Talvez agora seja hora de descobrir ou relembrar que sonhos ficaram esperando, porque havia alguém precisando de você!
Não porque a maternidade acabou.
Mas porque ela mudou de lugar.
Você não precisa mais estar no centro da vida dele, e acredite, o papel de coadjuvante pode ser bastante confortável.
Pode estar na margem, naquela posição bonita de quem observa, torce, acolhe e, quando necessário, oferece uma ponte.
E talvez, um dia, você perceba que existe uma beleza inesperada nessa nova maternidade.
Seu filho não volta para você porque precisa.
Ele volta porque quer.
E existe uma diferença enorme entre ser necessária e ser escolhida.
Então, querida mãe de um filho “adultescente”, respire.
Você não precisa saber exatamente como fazer isso.
Ninguém sabe. Ninguém nunca teve todas as respostas.
Você está aprendendo a ser mãe desde que se tornou uma.
E talvez vocês dois estejam, cada um à sua maneira, aprendendo a se relacionar novamente.
Não tenha tanta pressa de preencher o silêncio que aparece entre vocês.
Alguns silêncios são apenas espaços.
E, às vezes, é justamente nesses espaços que uma nova relação começa a nascer.
Menos necessidade.
Mais escolha.

Com carinho,
uma mãe que também está aprendendo a deixar crescer.

Escrito por: Fabiane Belarmino

Revisão: Angélica Filha

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