Antes de ser mãe, eu fui madrasta… 

O trecho do conto de fadas que eu não esperava viver 

Se por um lado temos um consenso moral e social que vínculo não depende de consanguinidade, através da expressão “pai é quem é cria”, por exemplo; há uma outra narrativa imposta caso o vínculo com uma criança ou adolescente vier de uma madrasta. 

Amar sem vínculo biológico, é muitas vezes interpretado como afronta, competição, exibicionismo; todas estas críticas eu já ouvi sendo madrasta há 10 anos; mas minha história com o desejo de maternar começa quando eu era criança, na década de 90 numa cidadezinha do interior. 

Sempre desejei ser mãe. Venho de uma família unida, em que a criação dos filhos foi compartilhada entre muitas mulheres. Mães, madrinhas, tias, avós, primas…Um grande círculo de amor e afeto era formado, e a função do cuidado era distribuída entre cada mulher que honrava o seu propósito de zelar e educar. 

Não se usava o termo rede de apoio na época, mas o grupo era formado por muitas mãos, mamas (amamentação cruzada era comum), braços, abraços e carinhos de mulheres que se doavam pelos seus, que eram tidos como nossos.  

A aldeia do provérbio africano, eu pude viver na prática, e seu movimento poético e  feminino, ocupa lindas memórias da minha infância.  

Este cenário comunitário foi semeando em mim a crença que, dessa forma, é sadio, potente e possível ser família. Meu pai também era presente, mas o elo coletivo era ocupado somente por mulheres. 

Cresci, aos 17 saí para estudar, me graduei, lecionei e esbarrei em um, assim como eu, jornalista. Um homem e tanto: educado, letrado, gentil e um ótimo pai.  

O príncipe do meu conto de fadas por já ter um filho, me colocou, aos olhos da sociedade, não na posição de princesa, mas de bruxa. 

Conheci meu enteado quando ele tinha pouco mais de dois anos. Nosso castelo de confiança foi criado a cada tijolinho nestes 10 anos. Na contramão das estatísticas, meu marido, na época namorado; sempre foi muito presente, o que possibilitou que o contato com meu enteado fosse praticamente diário durante todo este tempo.  

O considero primeiro filho, não gerado no ventre, mas na minha alma materna. Hoje ele tem 12, e nossa relação é um dos meus tesouros mais preciosos. Porém, foram muitas pedras nesta década de maternar não biológico, e depois que me tornei mãe em 2023, confirmei o que já desconfiava: a função do cuidado é usada pelo patriarcado de diferentes formas e papéis, mas com intenções semelhantes: controlar e diminuir a mulher enquanto sujeito que pode tocar outras esferas da vida para além da função materna. 

Diante disso, me debrucei sobre as causas para tanto julgamento referente a uma mulher que decide se casar com um homem que já constituiu família anteriormente.  

No livro “A criação do Patriarcado” de Gerda Lernes, a autora frisa que historicamente, o casamento/vida afetiva da mulher é o que lhe atribui valor, diferente dos homens que tem valor e poder atribuídos aos meios de produção. Desta forma, quando um casal se separa e o homem começa a viver outro relacionamento, a nova mulher é rotulada como vilã, afinal de acordo com o imaginário popular, ela usurpou de outra mulher sua posição de valor social. 

Para além disso, outro fator que contribuiu para esse estigma, é o consolidado consumo de entretenimento norte americano por parte dos brasileiros, e as referências criadas a partir de filmes da Disney, que reforçaram desde 1937, o papel da madrasta como uma mulher usurpadora da figura materna. 

Diante deste olhar repetitivo e unilateral sobre o papel da madrasta nos filmes, me recordo do livro da Chimamanda Adichie, “O perigo de uma história única”, onde a autora destaca o risco de criarmos uma visão incompleta e definitiva sobre determinado grupo ou povo: “É impossível falar sobre a história única sem falar sobre poder. Existe uma palavra em igbo na qual sempre penso quando considero as estruturas de poder no mundo: nkali. (…) quer dizer “ser maior do que outro”. Assim como o mundo econômico e político, as histórias também são definidas pelo princípio de nkali: como elas são contadas, quem (…), quando são contadas e quantas são contadas depende muito de poder. O poder é a habilidade não apenas de contar a história de outra pessoa, mas de fazer que ela seja sua história definitiva.” 1 

Porém, vale lembrar que o mesmo véu que cobre a madrasta, é usado, através de outras tramas e vieses, para encobrir o distorcer outros papéis também ocupados por mulheres, como mães solos, mães lésbicas, MÃES: em toda a grandeza que habita nesta palavra. 

“A consequência do conhecimento sexual é dissociar a sexualidade feminina da procriação. Deus planta inimizade entre a serpente e a mulher (Gênesis 3:15). Nesse caso, as consequências da transgressão de Adão e Eva recaem de forma desigual sobre a mulher. No contexto histórico da época em que Gênesis foi escrito, a serpente era associada com clareza à deusa da fertilidade, representando-a simbolicamente. Sendo assim, pela ordem de Deus, a sexualidade livre e aberta da deusa da fertilidade deveria ser proibida para a mulher caída. A forma pela qual sua sexualidade deveria se expressar era a maternidade. Sua sexualidade feminina foi definida para servir a função maternal e limitada a duas condições: teria de se subordinar ao marido e dar à luz os filhos.”2 

Como madrasta, mãe, jornalista, historiadora, mas principalmente, como mulher, sinto que o mais triste impacto disso, é que de alguma maneira este olhar pejorativo contra a madrasta reforça uma suposta rivalidade feminina entre mãe e madrasta, uma disputa pelo “centro da família”, com objetivo de nos enfraquecer como grupo, já que unidas temos mais poder e voz em busca daquilo que todas nós merecemos: equidade, pura e simples. 

Sigamos juntas, lutando, escrevendo, buscando a criação de uma nova narrativa, e que neste processo, possamos como cita a professora Lola Aronovich, no prefácio do citado livro de Gerda Lerner, “munidas da própria história, fazer revolução.”3 

Escrito por: Ariane Bocamino | Instagram: @missaomadrastaemae

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