Sobre dores e delícias

A joyful moment of a mother embracing her young daughter in a park setting.

A apresentação de dança da festa junina da escola acabou. E uma menina de duas chiquinhas e 6 pintinhas falsas no rosto – 3 de cada lado, cuidadosamente pintadas com lápis de olho – veio saltitante direto para os meus braços celebrar.
E eu a pego em meus braços e, juntas, rodopiamos felizes.


A tentativa de dar mais um passinho foi mal calculada. E uma menininha de olhos curiosos e sorriso fácil caiu com seu bumbum fofinho de fraldas no chão e, imediatamente, veio depressa para os meus braços chorar e se consolar.
E eu a pego em meus braços e, juntas, nos acalmamos.

A virose chegou com tudo o que tem direito: febre, prostração, tosse, secreção nasal, falta de apetite e vômitos. E aquela menina que, em tantos momentos me parece tão crescida, novamente se apequenou e veio procurar meus braços para se aconchegar.

E eu a pego em meus braços e, juntas, mais uma madrugada atravessamos.

O despertador tocou cedinho de manhã e eu resisti em ativar o modo soneca, pensando que fazer meu café da manhã tranquila e em silêncio é um daqueles rituais que eu sei que mudam meu humor e, por vezes, até mesmo o meu dia. Então eu levanto, passo meu café e, quando vou me sentar para tomá-lo, escuto lá no quarto: “colo, mamãe”. A menininha acordou muito antes do que eu havia planejado.

Eu a pego em meus braços e, juntas, sentamos à mesa para que eu tome meu café que, a estas alturas, já esfriou.


A expectativa era de um domingo de descanso depois de uma semana realmente puxada. E eu me peguei resmungando e mal-humorada porque, há um tempo, a gente se esforçou e juntou grana para comprar um sofá espaçoso de quatro lugares. Porém, elas só querem o meu colo e ficar entre os meus braços.
E eu as pego em meus braços e, juntas, ali nos deixamos ficar.

O dia estava lindamente ensolarado e o passeio na pracinha do bairro foi uma delícia. Na volta, ladeira acima, as meninas (inclusive eu) já estavam cansadas, suadas e com fome. Então sinto aquelas mãozinhas puxando minha roupa e aqueles olhares suplicando por um colo.

E eu as pego em meus braços – uma de cada lado – e, juntas, encaramos o caminho de volta.


Percebe o que eu quero dizer?
Ter, em meus próprios braços, o lugar de colo e abrigo das minhas filhas é um exaustivo privilégio. Sim, é exaustivo. E, sim, é privilégio.
Os mesmos braços que sentem dor nos ombros e nos punhos por darem conta de um peso – por vezes – humanamente excessivo, são também os que se elevam, agradecendo aos céus pela oportunidade de serem o porto daquelas que mais amo.
E eu sinto intensamente ambas as coisas: o cansaço e o privilégio. E sigo entendendo que não tem problema nenhum sentir, ao mesmo tempo, sentimentos tão diferentes. A verdade é que tenho aprendido nessa jornada que a melhor rima para a maternidade, talvez seja mesmo, a ambiguidade.
Mas, também já sei que cabe somente a mim, a cada instante, escolher qual desses sentimentos vai pesar mais na balança da vida.
E, então, sigo achando que é exaustivo. Mas, definitivamente, é um privilégio poder tê-las em meus braços e fazer deles o seu porto e refúgio.

Autoria: Raquel Mestriner 

Revisão: Bárbara Soares

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