Tenho carteira de habilitação há quase dez anos, mas dirigir sempre foi um medo que carreguei comigo. Nunca me imaginei ao volante de um carro próprio. Parecia uma habilidade destinada aos outros, não a mim. Sentia-me inapta, como se estivesse destinada a cometer um acidente grave caso assumisse a direção. Enquanto algumas pessoas falavam de dirigir com naturalidade, eu sentia o corpo endurecer só de imaginar minhas mãos no volante.
A vida, porém, tem seus modos de nos empurrar, muitas vezes justamente na direção dos nossos maiores medos.
Eu precisava chegar ao trabalho. Moro em uma cidade pequena do interior da Bahia e não há transporte público para o trajeto que eu faço diariamente. Durante muito tempo, dependi dos chamados carros de linha (carros de passeio transformados em transporte clandestino). Foram muitas histórias vividas nesses percursos. Lembro do desconforto de viajar apertada entre desconhecidos, do medo quando o motorista insistia em colocar mais uma pessoa onde não cabia ninguém, da aflição ao perceber que a pressa valia mais do que a segurança.
Muitas vezes saí de casa bem cedinho, carregando bolsa, materiais de trabalho e preocupações. Outras vezes voltei cansada, contando os minutos para chegar. Eu dependia dos horários dos outros, das decisões dos outros, dos caminhos escolhidos pelos outros. E, embora aquela fosse a única alternativa possível naquele momento, havia algo em mim que desejava mais autonomia.
Mas não era apenas sobre mim.
Mais do que chegar ao trabalho, eu queria, principalmente, chegar a outros lugares com minha filha. Queria levá-la para passear, conhecer cidades, praias, parques e estradas. Queria poder dizer “vamos?” sem precisar consultar horários, disponibilidade de motoristas ou favores. Queria que ela pudesse olhar o mundo pela janela e descobrir que ele era maior do que os limites impostos pela falta de transporte. Talvez, sem perceber, eu quisesse oferecer a ela aquilo que eu mesma não tive: a sensação de liberdade.
Então comprei um carro.
Dividi em muitas prestações, como tantas pessoas da classe trabalhadora fazem todos os dias. Quando peguei as chaves, a alegria veio acompanhada do medo. O carro estava ali, mas eu ainda precisava enfrentar a parte mais difícil: dirigir.
No primeiro dia em que saí sozinha, mesmo depois de pagar algumas aulas extras na autoescola, senti que o coração não cabia dentro do peito. Precisei entrar na BR-116. As lágrimas vieram junto com cada troca de marcha. Eu tinha medo dos caminhões, medo da velocidade, medo de errar, medo de não conseguir. Enquanto dirigia, chorava. E, ainda assim, seguia.
Seguia porque precisava. Seguia porque não havia outro caminho.
Hoje continuo dirigindo com certa tensão. Ainda existem curvas que me assustam e dias em que a insegurança reaparece. Mas aprendi que coragem nem sempre é ausência de medo. Às vezes, coragem é simplesmente seguir em frente apesar dele.
A maternidade me ensinou isso. Talvez eu nunca tivesse enfrentado esse desafio apenas por mim. Mas, por minha filha, eu entrei no trânsito. Por ela, atravessei estradas que pareciam impossíveis. Por ela, descobri que algumas das nossas maiores transformações acontecem quando a vida nos coloca em movimento.
Ontem fomos ao cinema. Dirigi até lá, procurei uma vaga, estacionei e entramos de mãos dadas. Ao final da sessão, coloquei minha filha na cadeirinha, liguei o carro e seguimos viagem. Enquanto conduzia pelas ruas da cidade, percebi que aquele trajeto simples carregava algo extraordinário.
Eu estava dirigindo! Eu estava livre!
Autoria: Lara Bessa
Revisão: Bárbara Soares





