A confissão

Joyful moment captured as a woman enjoys a refreshing waterfall in nature.

Estava seguindo um ritmo sutilmente acelerado no trabalho de professora. Essa constatação foi unicamente possível em virtude do recesso escolar. Finalmente as férias. Entretanto, teria que dar conta de outros afazeres fora do ambiente profissional como, por exemplo, os de mãe e dona de casa. Assim, propus-me a repensar a maneira de lidar com essas múltiplas tarefas e posições sociais a fim de descansar o corpo e a mente. Já sentia falta de manter contato com a natureza. E numa exclamação espontânea pensei “Preciso de algo natural para estimular o meu aspecto sensorial”. Em vista disso, resolvi organizar uma viagem no final de semana. Durante os preparativos sentia-me incomodada com tanta coisa para ser lembrada. A tarefa de separar e arrumar roupas e acessórios estava me deixando de tal forma neurótica, que cancelar a viagem não estava fora de cogitação.

Chegou o grande dia! Enquanto o passeio acontecia, houve momentos alegres e divertidos, mas outros foram de intensa introspecção. Abruptamente negava algo estranho e angustiante que tomava conta da mente e do corpo. Almejava possuir a sensação de alegria intensa pelo simples fato de estar com as pessoas cujo amor transborda: esposo e filho. Ao invés disso, existia apenas a obrigação de permanecer ali como mãe e esposa. 

No segundo dia de viagem, visitamos a Cachoeira do Éden. A água tinha, em seus detalhes, uma cor marrom e avermelhada de tons escuros, que só clareava parcialmente com o reflexo da luz do sol. Ao avistar a belíssima paisagem daquele lugar, percebi que a correnteza era bastante forte. O mergulho, sem dúvida, era convidativo porque era um dia quente. Ao olhar fixamente para a correnteza da cachoeira e a sua atrativa queda d’água, algo foi pulsando dentro de mim. Uma sensação agradável! Como por uma força instintiva e involuntária, simultaneamente, desejei a mim mesma. Eis que surge a vontade de fotografar aquele lugar ou até mesmo de gritar, dar risadas… de ter prazer!!! Contudo, dei-me conta de que não estava sozinha. E de repente, vi-me tendo que ser mãe naquela ocasião, o que não condizia com aquela energia pulsante dentro de mim. Metaforicamente o tempo fechou para mim. Meu estado era como de um cão revoltado quando é impedido de sair pelo portão rumo à rua. É provável que estivesse atravessando a tempestade do sentimento de culpa materna. O desejo por solitude confrontou a voz que sussurrava ao meu ouvido: a-m-o-r c-o-n-d-i-c-i-o-n-a-l. Haveria de ter a capacidade para desconstruir a ideia de culpa e  aceitar serenamente o anseio pela minha própria companhia. Após o confronto emocional, entre reprimir ou sustentar o desejo, houve o mergulho em busca pela sensação de paz. Uma espécie de banho sagrado. A alma respirou tão suavemente ao ponto de recordar um pensamento de Leonardo Boff “o ponto de vista é a vista de um ponto”. Naquele dia, a tranquilidade e a harmonia trouxeram a lucidez e, somado a isso, a autoempatia para compreender, já dizia Donald Winnicott, basta exclusivamente SER uma mãe suficientemente boa. Enfim, a paz selou e tudo fluiu naquele dia.

Autoria: Kellen Couto

Revisão: Bárbara Soares

Deixe um comentário

Rolar para cima
0

Subtotal