Foram semanas internamente desafiadoras, lembranças de minha avó me visitavam. Ela que me maternou, para que minha mãe, sua caçula, pudesse escapar da sina das mulheres da família – estudar até a 4ª série e trabalhar em casa (da própria ou como empregada doméstica).
Toda uma atmosfera me tomava: os gestos dela me chamando pra mesa, suas mãos machucadas pelas roupas no tanque e frias das horas lavando louças, o chiado da panela de feijão no fogo, o cheiro de café doce, colocado pra São Benedito e depois deixado na garrafa térmica, à espera da visita de um dos 7 filhos vivos. À tarde, tempo dedicado às finas linhas de crochê, dali nasciam toalhinhas feitas com esmero e cor, para dar beleza e cuidado à casa. No fim do dia, o jantar do vô pronto e o terço na tv; eu ao seu lado, atenta para aprender cada palavra e movimento. No domingo, a macarronada com frango para toda família – sem luxo, mas com direito a queijo ralado tipo “Teixeira” e refrigerante, em vez de “ki suco”. Seu olhar atento (e triste), seu fazer solitário e solidário, suas poucas e certeiras palavras.
Eu lembrava da minha vó e temia repetir sua sina, que me soava limitante. Assim como minha mãe, tive a oportunidade de me formar e escolher com o que trabalhar. Consegui quebrar com o destino que me pareceu inescapável por gerações. Sentia isso como uma vitória das mulheres da minha família e das feministas que eu admirava. O tempo passou, as experiências chegaram, encontrei um companheiro com quem compartilhar a vida e suas tarefas. E foi desde que me tornei mãe, que um campo que me parecia aberto de possibilidades, se restringiu. Sempre participei das atividades da casa, desde menina, mas ser mãe me convidou a passar mais tempo em casa – especialmente após meu segundo filho. Eu não queria terceirizar a educação das crianças, gostaria de ser mais presente do que minha mãe pôde ser; eu amamentava meu bebê e tinha uma filha mais velha ainda na primeira infância. Eu não podia contar com a rede de apoio da minha mãe e meu marido tinha mais oportunidades no mercado de trabalho do que eu. O sensato era: eu seria do lar, por um tempo.
Essa escolha mexeu em lugares profundos em mim. Dediquei-me mais que nunca aos afazeres domésticos… arrumar, limpar, lavar, cozinhar… Eu seguia fazendo, fazendo, fazendo… como tantas outras Mulheres. Um conhecimento apreendido pela repetição de um gênero, sustentado na ideia de que nem tudo que fazemos gostamos, e essa era a parcela que me cabia. Eu reconhecia a importância e o valor de tudo aquilo (claro!), mas seguia sendo uma obrigação com pouca ou nenhuma poesia, o caminho inescapável da sina doméstica.
Os dias só faziam crescer o desejo de voltar ao universo do trabalho não-doméstico, do fazer remunerado, com horário de início e término, com pausa para o banheiro e o café. Eu olhava ao meu redor, via a interminável pilha de roupas para lavar; a louça a se multiplicar; a poeira que parecia se acumular sobre os móveis e sobre o meu corpo; o relógio a me dizer o horário das refeições, do banho das crianças e das horas do meu próprio abandono. Ficavam comigo as sensações de prisão, exaustão, atraso e caos! As crianças sempre foram pra mim grandes mestres, mas eram cada vez mais frequentes as vezes em que eu me perdia na impaciência com elas, nas queixas e brigas com meu companheiro.
Em meio ao meu caos interno, encontrar outras mulheres para conversar arejava minhas percepções. Num desses encontros, uma amiga querida, colombiana de Cali, me falou que em sua terra, algumas mulheres chamavam a realização dos trabalhos domésticos de “fazer destino”. Achei tão bonito. Ouvir isso me veio como um presente, soou como o sussurro de uma mulher sábia ao meu ouvido, dando ao meu cotidiano a nota de poesia que me faltava.
Por algum motivo, naquele momento entendi que apesar de todas as opressões estruturais, as lentes pelas quais eu estava vendo o mundo e acessando minhas memórias, também trabalhavam pela minha prisão e “domesticação” (no pior sentido do termo). Era o sistema que ganhava ao forjar corpos resignados e tristes.
Coloquei-me então a intenção de ver sacralidade e beleza nas atividades domésticas. Deixar de ver as coisas apenas como obrigações, e enxergar como meios para conquistar o que desejo, permitiu-me perceber que enquanto limpo e organizo minha casa posso renovar as energias, curar os ambientes, acessar egrégoras ancestrais. Pois, se a força das orações (como as que aprendi com minha avó) está na egrégora formada a partir de pessoas que, repetidas vezes, vibram naquela intenção, imagine o tamanho da egrégora dos trabalhos domésticos. São centenas de mulheres, por séculos executando as mesmas atividades. A minha força soma-se à delas! Meu destino se une e se fortalece no destino delas. Fazer as tarefas com essa intenção, era como encher a minha vida com as toalhinhas coloridas de minha vó!
A casa arrumada e organizada não resolveu os problemas estruturais, mas me colocar no centro de minha experiência, me ajudou a me relacionar com o tempo e as experiências em profundidade (não apenas em extensão) e me deu inspiração para viver as tantas outras coisas que desejo. O excesso de tarefas segue sendo o desafio para a manutenção da calma e da gentileza em minhas palavras e gestos. Mas escolher o caminho da alegria como resistência, me permitiu colocar limites e curtir mais meu companheiro; brincar com as crianças, envolvendo-as nas tarefas. A sacralização do que aparentemente é banal tem me feito ganhar energia e disposição em atividades que antes só traziam exaustão. Assumi, assim, a tarefa de Fazer Destino! E não como uma fatalidade que não se pode evitar, como uma prisão de um corpo domesticado, mas como um caminho que, apesar dos percalços, percorro amorosamente! Pois o trabalho doméstico tece, nas horas, a rede que sustenta a vida humana, e isso é político e poético.
Autoria: Jéssica Zenorini
Revisão: Bárbara Soares





