Língua mãe

Side view of crop caring mother with cute infant baby sleeping peacefully together while lying on bed in light bedroom

Há cinco anos e alguns meses o verbo maternar me povoa. Poesia, desenho e artes eu já incorporava antes: a vida toda. Mas o que fazer com essa poeta quando a mãe não para de ser chamada? Eu desenho, escrevo, caminho. 

Uma criança me pede um copo de leite. 

Eu-caminho escrevo (de novo?)… “Mãe, eu tô com fome!” 

Eu-escrita falo. Meus filhos fragmentam minhas linhas de raciocínio em uma poética que me desmonta. Será que escrever significa parir? Eu-parto corpo… Ser mãe abriu mil abas na minha existência. Alguém viu meu dicionário? 

A língua é um organismo: dança, conforme a gente usa. Dizer o que seja na língua, em formato de ação realizada, faz o corpo todo conjugar o gesto em si. Corpo-pulso. Impulsiona o mundo inteiro. Somos células. 

O primeiro gesto pulsante em fala do meu filho mais novo foi “Tales qué mamá”. Foi poesia aos meus ouvidos: fiquei impressionada com meu pequeno (aos dois anos) conjugando um desejo. Conclusão recém-descoberta: “essas palavras nessa ordem expressam ‘eu’ diante do mundo”. Olhinhos brilhando (talvez pelo querer, mas principalmente) por descobrir-se alguém capaz de pedir o que quer. É por esses momentos que a minha poeta, mesmo quando foi a menor parte de mim, guardou meus pequenos escritos em forma de diário. 

Mamá. O que isso me fez no corpo? Uma cascata de leite fluiu de dentro para fora do corpo vazando pelos bicos dos peitos cheios. Eu: transbordada. De repente, um bebê sugando o seio. Quer dizer: conectar a máquina-fome à máquina-alimento. Amor. Alívio. Vida, transmitindo-se ao deixar-se sugar para alimentar o ser no mundo. 

Onde mais ouvi um “mamá”? 

Outro dia minha filha Amora (do alto dos seus quatro anos) me perguntou: “Mamãe, qual foi minha plimeia palavla?”. “Mamá”, respondi. Ainda lembro dessa excitação quase igual: uma pessoinha articulando, sem dúvida, pela primeira vez, a encomenda do seu desejo (por mim?). A frase solicitante – “eu quero” – subentendida. 

Amora perguntou se tinha pedido meu leite ou meu colo. Respondi que não fazia diferença. E percebi que realmente não fazia: me dava igual alegria – e pânico, cansaço, irritação, dor no peito, exaustão, peito enchendo e leite jorrando! – se eu fosse o alimento ou o colo que alguém queria a ponto de a bichinha me direcionar sua primeira palavra.

Para virar esse desejo, conheci, quis e beijei outra pessoa, amei e construí intimidade com ele… gozei com essa pessoa e criamos juntos esse bichinho, debaixo de uma árvore, à noite. Fizemos o projeto dessa pessoa, que essa máquina-corpo protegeu e conduziu a se criar até nos mínimos detalhes: as unhas, os cílios, os pelinhos das costas… 

Esse processo me fez vomitar, ficar enorme, pesar para a frente, não conseguir ver meus pés, desequilibrar, parar de sangrar, não conseguir deitar de barriga para cima: tudo consequência do desejo que foi se nomeando na língua como “mamá”… 

… para florir a fruta a partir de mim, depois de explodir a bolsa de oceano que o meu corpo criou para protegê-la enquanto crescia. Tive que ser costurada por um homem, que comentou com meu companheiro ‘como eu estava rasgada!’. E disse que ‘isso não teria acontecido’, se eu tivesse sido mais doce… e ‘aceitado o procedimento’, que ele ofereceu. Ele queria ter sido o protagonista do meu florescer, em vez de fazer seu trabalho, que era ajudar a me recompor? 

Ele não era poeta.

Mas eu estava com aquele bichinho de carne, osso e sebo nos meus braços – nosso primeiro abraço. E ela estava sugando meu seio que tinha acabado de se encher e latejar desconfortavelmente, de um jeito que eu e ela nunca tínhamos sentido. Nada importava. Sentia uma alegria e um amor doidos, euforia vertiginosa, tonta e desequilibrada… que só escrevendo à mão, para expressar. 

Depois disso, meus seios racharam, esguicharam leite, doeram e caíram. O corpo ficou flácido, lento e dolorido por meses. Meus olhos vazaram e arderam de emoção e sono, tiveram olheiras, afundaram, brilharam e ganharam a visão atenta das pequenas coisas. Que ficaram tão grandiosas que não sei como pude ignorá-las até então. 

Nove meses depois, meu sangue parou de descer de novo e achei acertadamente que estava tudo recomeçando. Era que eu tinha reconhecido, querido, beijado, amado e reconstruído a minha intimidade com outra pessoa. Por isso eu estava de novo oceanizando uma nova casa d’água por dentro, com o projeto de outra semente que essa máquina-corpo ia ajudar a crescer. Então, flori outra pessoa: também rasguei e fui costurada, enquanto o pequeno bichinho me sugava um pouco da vida de que ele precisava. E eu estava feliz por compartilhar. Dessa vez, uma mulher me costurou. E cumpriu melhor a função de emendar meus retalhos de forma respeitosa. 

Nessa parte também escrevi e reescrevi tudo de novo, para respirar a poesia durante os re-acontecimentos em fluxo veloz: seios cheios, seios moles; corpo enorme, corpo flácido; vômito, sensibilidade a cheiros, coração mole, olhos vazando afetos… e o corpo precisava trocar peças: mover galhos, ampliar raízes, lubrificar engrenagens, criar uma nova língua para dizer da novidade a se repetir sendo totalmente diferente. 

A língua dessas repetições maternas – que ora se sofrem, ora são amadas –  gera séries de coisas singulares: nem o que germina no mesmo útero é igual ao outro… é língua que aprendi falando com meus filhos desde quando só chamavam “mamá” – palavra única – até agora, que falam pelos cotovelos: a nossa língua mãe que acolhe. 

Essa língua é a mãe sobre a qual eu desenho, escrevo e caminho. E depois eu-caminho escrevo (de novo!) este texto, tentando dar conta dessa experiência que me anula, fere e amplia diariamente com milhares de palavras “mãe” por dia. Então falo: corpo-máquina. Fico aqui: inventando me dizer mãe. E me desdizer, para dar lugar às outras pessoas de mim. 

Autoria: Jéssica Silva

Revisão: Bárbara Soares

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