A lágrima descia pulsando no ritmo do sangue que escorria entre minhas pernas. No abandono da equipe de saúde, fiquei lá com meus pensamentos. Pareceu que foi um castigo para mim, e talvez eu o merecesse. Afinal, lá dentro, pensei que talvez não quisesse mais um filho.
Comecei a sentir um frio intenso, meu queixo batia. A maca gelada, coberta com um lençol quase transparente de tão fino, piorava a sensação térmica. Tentei não pensar no frio, no que estava acontecendo. Comecei a tentar identificar onde eu estava e o que tinha na sala. Tinha uma caixa de luvas, um tripé, um equipamento que não conhecia. Pensei que depois procuraria saber do que se tratava. Nem lembrei mais, até escrever sobre o ocorrido.
Senti a pulsação que vinha de mim. TUM, TUM, TUM. Não era meu peito que batia. Era o sangue que saía de mim, que jorrava em batimentos. TUM… TUM… frio… frio. Sempre imaginei que a morte fosse fria. Consegui comprovar, mas não teria a quem contar.
Destinei meus pensamentos a Deus: cuida da minha menina. Cuida do meu marido, ele está lá fora, não o deixam entrar por ser homem. Hospital público tem outras regras. Cuida da minha mãe… cuida de mim. Deus com certeza ouviu meus pensamentos e agora vai me levar com meu filho. Ele sabia que eu estava cansada. Que ensaiava uma despedida. Mas nunca pensei em suicídio. Pensava apenas em morrer, o que é bem diferente.
Depois que fui mãe, fiquei numa penumbra, numa tristeza. E aconteceram tantas coisas na minha vida. De repente, quando se é mãe, todos aqueles sentimentos parecem um colchão que vem no vácuo; vem no tamanho de um travesseiro, mas a gente deixa o ar entrar e ele, BAM… fica grandão e ninguém mais consegue colocar do tamanho que era. Todos expandiram, mas eu continuei pequenininha. Ou será que encolhi?
Voltei um pouquinho no tempo para a hora em que começou a doer. Estávamos eu e minha filha em casa; era um dia normal. Veio aquela cólica forte, pareceu uma contração. Não era para ser o momento. Dezessete semanas é pouco para contrações. E percebi o que a teoria tenta explicar: a dor é uma experiência angustiante associada a uma lesão, mas que carrega componentes emocionais, cognitivos e sociais. A dor que estava sentindo foi muito maior do que a dor que senti no parto de minha filha. Os componentes emocionais e sociais estavam mais sensíveis à experiência de agora.
Peguei a bolsa, minha filha, liguei para meu marido e fui para a UPA. Entrei com minha filha nos braços e mandaram aguardar o acolhimento. Expliquei o que estava acontecendo e o atendente disse que teria que aguardar a vez. Levantei da cadeira e vi um pequeno rio de sangue formado no assento, começando a escorrer da minha perna. TUM… TUM… Mostrei ao atendente e ele disse que, mesmo assim, teria que esperar ou ir para a maternidade.
O rio começou a se formar em meus olhos. Meu padrasto, que trabalhava em frente, foi ao meu encontro enquanto eu chorava e me mandou entrar no carro. Fui à casa da minha mãe trocar de roupa, mas o rio não parou. TUM… TUM… Coloca a toalha e corre para a maternidade.
Volto para o presente. Entra um médico ou enfermeiro e me olha. Coloca as luvas e põe a mão dentro de mim. Não há conversa, pergunta, licença. O corpo da mulher na saúde se torna público. Ele vai e volta com a mão tirando vida, sangue, dignidade. Mas nem estou aí. Na verdade, começo a me desconectar. Só o ouvi pedindo para medir minha pressão e o diagnóstico de longe: está 7 por 4. Leva para o bloco. TUM… Senta, encurva a coluna, só uma furada.
Silêncio. Vazio.
Choro de bebê. Mão alisando a cabeça. Cheiro de cloro. Acordo com minha irmã beijando minha cabeça e matando muriçocas com uma raquete. Eu ri com a cena. Se for o céu, estou vendo que já gostei do humor. Comecei a entender de fato o que tinha acontecido. Aquele choro de bebê não era do meu. Havia vários bebês. Nenhum era meu. Meu corpo não foi berço, foi túmulo. Nele, meu filho brotou e morreu. Talvez tenha sido melhor assim. O mundo não tem nada para dar. Eu não tenho nada. Mal estou sabendo ser mãe de um filho, imagina de dois. A assistência fornecida foi alimento, banheiro mal lavado, choro de bebê e muita muriçoca. Já havia perdido tanto sangue, nem sei o que elas tentavam conseguir comigo. Nenhum exame, nenhuma visita. Procurei saber qual seria a tratativa e fiquei sabendo que nada seria feito. Só a alta ao completar 48 horas.
Diante disso, fui para minha casa. Havia uma festa a fazer. Sim. A festa de um ano de minha filha estava agendada e não a desmarquei. Eu, apesar de fraca no corpo e com a mente ausente, mantive o protocolo. Afinal, o que mais ouvi foi que Deus sabe o que faz. Se ele sabia, então sigamos.
Ao chegar em casa, recebi todo o amor possível. No luto, não se sabe muito o que se fala ou o que se faz, mas entendo que todos estavam fazendo o seu melhor. E o melhor, nesse caso, foi vestir nossas máscaras; vesti a melhor máscara que consegui, uma de resignação. Cada um vestiu a que lhe coube, e comemoramos o primeiro ano da criança linda que temos. Guardando em algum lugar secreto a dor da perda para outro momento, porque essa sempre volta a doer.
Autora: Marcela Correia
Revisora: Micaela Queiroz Redondo





