Avante

A mother and daughter enjoying time together outdoors, depicting love and care.

Ainda escrevo em papel e caneta a vida que passa pela janela da minha maternidade atípica. É nessa janela que vejo, vivo ou imagino as vivências neurodiversas que cruzam a minha existência.

Convido a leitora amiga ou o curioso leitor a me acompanhar nessa estrada cheia de nuances e perspectivas que antes eu nem percebia. É aquele ditado das mulheres velhas e sábias que eu sempre escutava quando pequena, enquanto elas faziam seus papéis de mães e donas de casa da periferia de São Paulo, entre uma panela suja e o cheiro de alho e cebola no ar: “Só sabe quem vive”.

E, por viver tais experiências dessa maternidade diferenciada, trago-lhes verdades cruas e descobertas doces que cruzam nossa vida cheia de resistência.

Da minha janela, vejo desfilar diferentes maternidades. Elas são distintas, a depender de vários fatores.

Ali está a mãe que sabe o diagnóstico. A chamam de doida só por enxergar o que ninguém vê. Lá está ela, lendo e pesquisando, em meio a pensamentos e esperanças.

Naquela esquina está a mãe que acredita em um futuro em que ninguém mais crê. Ela continua marchando. Não se importa mais com a tonalidade da cor do cabelo ou se a calça que veste não está mais na moda. Ela crê e segue.

Sentada no ônibus está aquela outra que precisa trabalhar porque é somente ela e Deus. O sono é pesado. Só ali, no balanço do ônibus, que ela pode repor a energia. Logo mais começa a maratona das terapias.

No parque está aquela outra mãe que espera por uma vaga na tão sonhada clínica. Hoje, as terapeutas do seu menino não puderam atender porque o convênio não liberou as sessões. A solução foi andar pelo parque e sonhar com um futuro melhor, enquanto o pequeno sorria, girava e sentia seu mundo fluir.

Aquela outra prepara atividades para colocar em prática com a sua menina. Uma casa decorada por papéis com rotinas e ações de sua princesa. A louça continua lá, parada, assistindo a toda essa sinfonia: uma mãe que se equilibra entre refeições, roupas, dívidas e muito amor por sua filha.

Ali, ao longe, segue a mãe da mãe que partiu porque o sistema a tornou invisível. E a mãe da mãe segue porque seu neto só tem a ela e o imperioso senhor tempo segue implacável.

Aqui, mais perto, há a mãe que corre para chegar. Já é final da noite, e ela quer dar o beijo de boa noite na filha, depois de trabalhar em dois empregos para pagar um plano de saúde.

Sorrindo, vejo a mãe que acompanha o evidente progresso do filho, depois de noites mal dormidas e crises que ninguém acreditaria que um dia existiram. Ela sabe e ele também. E ele é feliz por ter uma mãe que nunca desistiu. Ela é seu farol em meio às ondas que não cessam de vir.

Aquela outra mãe fecha o portão com lágrimas para que seu filho não se machuque na própria casa, recheada de EVAs pelas paredes, sempre pensando em sua segurança. Ela sabe que o dia será longo, agora que seu filho é adulto e não há vagas no sistema público. 

Próximo à minha janela, há a mãe que transformou a dor em luta e hoje soma-se a outras mães, formando grupos de alegrias, lágrimas, lutas e reflexões.

Ah, essas mães…

Se eu fosse contar a vocês a quantidade de mães que ainda estão para passar por aqui, com as mais diversas vivências… Ah, essa história não teria fim…

As histórias vão descendo ladeiras e deixam rastros que se entrelaçam: luta, esperança, dor, busca por justiça, surpresas doces, realidades duras, sistema falho, amor. Neste cenário de mulheres e seus filhos, duas bandeiras se levantam e dão cobertura a estas personagens que apresento a vocês, nobres leitores: são elas, as bandeiras da resistência e do poder feminino.

Avante, sempre!

Autora: Vania Rodrigues dos Santos

Revisora: Micaela Queiroz Redondo

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