Mãos de mulher. Duas varetas de madeira. Um fio de lã colorida.
Varetas cruzadas. Nós. Fio. Atando cada extremo das varetas.
As mãos da mulher teciam.
Ela repetia mentalmente o comando da voz sábia que ensinava: passa o fio por cima da vareta, uma volta completa, estica até a próxima vareta. Vira. Fio por cima da vareta, uma volta completa, estica até a próxima vareta. Vira, fio por cima da vareta, uma volta… Corpo parado, coluna reta, ombros relaxados. Mas as mãos, agindo, faziam o que o comando mental dizia.
Com mãos e varetas e voltas e fio esticado, a mulher fazia surgir um artefato.
Pela primeira vez em muito tempo via, acreditava: seu corpo e sua mente ainda funcionavam. Juntos. E faziam alguma coisa. E aquela coisa era bonita. Era um olho. Olho de Deus.
Antes de saber tecer havia tristeza, horas estendidas de pranto. Havia insônia, dias emendados, sem fim nem começo. Fadiga desmesurada, transformando uma ida ao portão para atender o carteiro num exercício de resistência atlético. E havia aqueles pensamentos. Ela pensava sem parar e todo pensamento era cinza, era ruim, era acusação, era culpa, era mau presságio, era desprezo… era… não ver, não ser. Esteve assim outras vezes. Era ruim, mas ela reagia, se esforçava e sempre passava. Mas dessa vez… piorou! Passou a não sentir. Ou a sentir nada. Nada importava. Chorar ou não. Dormir ou não. Nada. Não ia a parte alguma, só era levada. Sabia que tinha corpo, mente e alma para viver gostos, aromas, texturas, odores e não se afetava por nada. Sabia — já começava até a duvidar — que era capaz de desejar, sonhar, ter raiva, sentir afeto e todas as coisas simples ou complexas que nos fazem humanos, mas simplesmente era indiferente a tudo. E tinha consciência da própria indiferença. E se culpava por isso.
A tristeza tinha começado assim. Eles casaram e esperaram os bebês crescerem no ventre da mulher. Mas o ventre, mês a mês, estava sempre vazio. Oco. Sempre nada. Como um olho sem poder ver. Então, cruza o caminho da mulher uma menina precisando de mãe. E a mulher entende que aquela menina, gerada em outro útero, é a cria do seu coração, o ser que a gerou mãe. Só que a mulher não sabia que ainda precisava, sim, gerar uma menina em si.
Mas aí aconteceu. A legislação sobre a parentalidade é um labirinto intricado e se alimenta de um processo às vezes longo, às vezes confuso, às vezes contraditório. Foi assim que, mesmo com vínculos construídos, as malas arrumadas para a mudança da criança com os novos pais para outra cidade foram as mesmas malas entregues para um parente biológico, que da menina conhecia apenas o nome. Foi naquele dia que a mulher esqueceu como se dormia: ela perdeu a menina. A cria do seu coração foi arrancada. E tudo escureceu.
O luto tomou conta de tudo, se misturou com todas as tristezas da vida e virou outra coisa. Quebrou o corpo. Quebrou a mente. Quebrou a alma. Virou doença.
A mulher é levada à médica: enlutada, rendida, vencida, culpada, envergonhada.
— Sei que o que vou te dizer agora é a pior coisa para se ouvir no estado em que você se encontra… — começou a psiquiatra.
Os pensamentos da mulher fervilhavam na mesma velocidade do compasso da perna direita que não parava de chacoalhar, apoiada no chão. Era torturante aquele estado de alerta. Já durava tanto. Naquele momento, captava cada palavra da psiquiatra e se fixava mentalmente em algo: “Vou te dizer… vou te dizer… vou te dizer…”, enquanto sentia aquele vazio imenso tomando conta de todo o corpo.
— … mas quanto antes você compreender o que acontece com você, melhor o prognóstico.
O vazio formava um nó na boca do estômago: “O que acontece… o que acontece… o que acontece…”
— Pelo seu histórico, por tudo o que me contou e pelos sintomas que está sentindo…
O nó no estômago apertou, sentia náuseas, o vazio tomava a nuca: “Sintomas… sintomas… sintomas…”
— …. seu diagnóstico é de depressão crônica. — Um peso lhe comprimiu fortemente o peito.
As últimas palavras da médica ficaram ressoando no cérebro e pareciam ecoar por todo o corpo tomado pelo vazio:
depressãocrônica DEPRESSÃOCRÔNICA Depressãocrônica DePreSsÃoCrÔnicA
depressãocrônicacrônicadepressãocrônicacrônicacrônicacrônica
O choro, até então contido em lágrimas que rolavam silenciosas pelo rosto, transbordou em sonoro lamento.
A médica a sustenta, mas é firme:
— Diagnóstico não é sentença. A vida não acabou. A medicina vai ajudar, mas dentro de você mesma há recurso, há um caminho para sair. Carece caminhar até achar a porta.
E a mulher caminhou. Buscou o caminho. Adivinhou o caminho. Caminho feito de varetas de madeira e fios de lã colorida. E mãos que criavam.
A mulher tecia. Como quem tece o próprio tempo de se transformar.
Fios coloridos entrelaçando-se, harmonizando-se em nós, voltas e varetas, criando caminhos e combinações.
A esperança em um fio verde enlaçava o fio laranja, energia que arrematava o quadrado-plenitude do amarelo gratidão. Um triângulo lilás resiliência, bordado com azul serenidade e azul-anil sabedoria. Aquele tecer era como gerar o que a recriaria, gerar-se com as próprias mãos.
O vazio era preenchido com fios coloridos, linhas, cores, presença.
Ela via um Olho de Deus surgindo de suas mãos. Ela via Deus olhando suas mãos. Via Deus. Via suas mãos. Ela via. A mulher criava o Olho de Deus, o Olho de Deus criava a mulher.
Tecendo o Olho de Deus ela encontrou a menina do seu olhar, aquela que ainda sabia brincar, que ainda conseguia imaginar e criar, que ainda sabia sentir.
Ela teceu o olho e saltou por ele de volta ao mundo. A menina-mulher saiu tecendo mandalas, tecendo a vida, tecendo até a volta da sua filha.
A mulher teceu um Olho de Deus, saltou para fora dele e sua filha entrou pela porta de casa.
Hoje, a mulher olha as mandalas que tece, olha para sua filha e lembra: “Sei quem sou”.
Autora: Lucila Simões
Revisora: Micaela Queiroz Redondo





