Nas entranhas da maternidade

A serene sunset on São Sebastião beach with two silhouettes walking along the shore.

Cresci vendo as mulheres da família engajadas no seio materno. Sempre aquela dedicação imensa e atenção, movimento que permanece até hoje nas gerações vindouras. Será uma sina ou presságio?

Dificilmente teremos a resposta. Mas me vejo envolta nessa atmosfera, enlace que não se modifica e traz vida àqueles que nascem nessa família amorosa e cheia de doidices também, porque o engendrado de ciúmes, sentimento de culpa — e às vezes, solidão — , também ronda a nossa família. 

Quando meu filho nasceu, era o primeiro neto da família paterna e materna. Foi um nascimento muito esperado e desejado por nós, seus pais e familiares. No entanto, após chegar em casa da maternidade, tive uma hemorragia que permaneceu por algumas semanas e me fez refletir sobre o papel de mãe. Estaria pronta para amamentá-lo? 

Tinha lido muitas obras sobre nascimento de crianças, dentre as quais “O Bebê”, que nos ensinava a cuidar melhor dos pequenos. Essas leituras me ajudaram a compreender o processo do nascimento e do puerpério. Mas estar adoentada e, acima de tudo, preocupada com aquela situação, deixava-me suscetível às transformações pelas quais meu corpo atravessava. Questionava-me se eu teria leite para dar continuidade àqueles dias de prostração. As visitas ao hospital eram diárias para que a hemorragia cedesse. Apesar de algumas semanas depois ter parado a hemorragia, nunca soubemos a verdadeira causa daquela angústia. 

Posso afirmar que muitos pensamentos preocupantes surgiram e, até hoje, agradeço ter tido meu ex-marido, que me ajudou bastante no processo de cuidados com nosso filho e comigo, e a administrar a volta dele ao trabalho. Meus pais, principalmente a minha mãe e, até mesmo a minha avó, eram companhias primordiais. Fiquei na casa deles por mais de um mês com aquela nova organização familiar. 

Por outro lado, papai ainda não tinha amadurecido na vida e, às vezes, chegava alcoolizado. Aquilo também me atingia muito. Por que a vida não era mais simples e as pessoas não assumiam suas próprias responsabilidades? O que nos salvava era o amor, a compreensão dos filhos para as crises familiares que vivíamos. 

Continuei a amamentar meu filho por um longo período, com paciência e alegria, suprida com caldo de cana, vitaminas e suplementos alimentares e a comida saborosa e forte da mamãe. Tudo para não ter mais anemia. 

Passada aquela fase traumatizante, fui para casa cuidar de nossa família, que crescia em graça e proteção. Ser mãe trouxe uma nova luz para minha existência. Um dia, descia as escadas de mau jeito e caí, levando meu filho nos braços. Nada aconteceu com ele, mas fiquei bem machucada. Estávamos saindo para uma viagem na madrugada e o fato de não o ter derrubado me deixou aliviada. 

Esse ar de mãe heroína subjaz às lembranças das minhas avós que passaram por desafios muito superiores aos meus com um filho saudável. Nas conversas que eu tinha com elas, soube das perdas de recém-nascidos e da precariedade de alimentação para suprir as necessidades daqueles pequenos seres que vinham ao mundo. Fomos agraciados com a vida plena em uma época distinta, mais evoluída e tecnológica. 

Infelizmente, anos depois o casamento acabou. Fomos para caminhos diferentes, mas o respeito sempre prevaleceu no quesito da educação do nosso filho. A situação abalou nosso seio familiar. Meu filho sentia a ausência do pai e isso, com certeza, trouxe-nos traumas e ansiedades. 

Toda essa dor foi amenizada quando meu filho, aos dezenove anos, ligou-me à noite dizendo que a taxa de glicemia dele estava alterada. Aquilo foi uma tempestade em minha vida. 

Chorava bastante, sentia-me culpada. Por que ele também estaria com uma doença com a qual conviveria por toda a vida? Mas os amigos me aconselhavam que tudo seria resolvido e saberíamos conviver com o diabetes. 

Há vários anos eu já convivia com aquela situação desequilibrada, mas ter um filho com a mesma doença não era uma tarefa acessível, em virtude da disciplina rígida, das idas constantes ao endocrinologista, das atividades físicas e da alimentação adequada com contagem de carboidratos. 

Tudo isso se tornou menos complicado porque ele já era um rapaz que me ajudava a controlar a saúde; havia situações em que ele mesmo me aplicava insulina ou ajustava a hipoglicemia que eu estava passando. Um combo, como chamamos, pelos desafios diários, que se complicavam à medida que o tempo passava. 

Por outro lado, a tecnologia está chegando e, para nós, pessoas com diabetes e outras comorbidades, ela favorece o acompanhamento das glicemias alteradas com a utilização de sensores e insulinas mais eficazes. 

No entanto, a realidade para a maioria da população é bem diferente, devido às baixas condições financeiras, à falta de acesso às consultas com especialistas para cuidar melhor da saúde e muitos outros desafios. 

Há anos, participo de uma associação de pessoas com diabetes: a antiga ADISF (Associação de Diabéticos do São Francisco) e, hoje, a ADIFAPE (Associação de Pessoas com Diabetes e Familiares de Petrolina). Nesses grupos, buscamos consolidar um trabalho de ajuda às pessoas com esses problemas. Não é fácil; o número de crianças e adolescentes com diabetes cresce assustadoramente em detrimento da ajuda que realizamos.  

Participamos também da Federação de Diabetes “Vozes do Advocacy”, que tem nos coordenado com a presença da Vanessa Pirolo, que muito nos ensina a realizar projetos e ações voltadas à população com este grave problema. Sem a ajuda de uma entidade de apoio à causa, não seríamos tão conhecidos e não poderíamos ajudar as pessoas mais carentes 

Neste processo de viver entranhada com a maternidade e o diabetes, sinto que, como “mãe pâncreas”, aquela que cuida de seus filhos e filhas com diabetes, eu tenho mesmo é um filho pâncreas, que se dedica muito mais a mim, com zelo e vigilância constantes.

Autora: Antonise Aquino

Revisora: Micaela Queiroz Redondo

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