A vista perfeita

A joyful child sitting on an orange vintage car, playing with a toy car outdoors in a sunny setting.

Foi a primeira vez que sentou no banco da frente. Tinha seis anos. Saída da escola às 18h. Lembro-me perfeitamente das mãozinhas apoiadas no descanso da porta, olhando pelo para-brisas, soltou um “Uaaaauuuuu!!! Daqui dá pra ver o mundo todo!!!” Ele estava no banco da frente, afinal! Eu sabia que vivia um momento para ser guardado no potinho das lembranças. 

Havia sido um dia daqueles! Eu trabalhava em jornada dupla. Há pouco tempo assumira a função de diretora de uma EMEF na periferia, próxima de onde eu morava. Era uma substituição. A titular saíra em licença saúde. Manhãs e tardes, tal qual malabarista; equilibrando falta de funcionários, alunos indisciplinados, estabanados, correria, “Será que contaram o estoque da merenda para a próxima semana?”, professores que faziam seu melhor com os recursos de que dispunham. Cruzávamos olhares. Bastava um segundo para saber que estávamos todos tentando fazer mais do que as forças permitiam. À noite, uma carga de 20 horas-aula como professora do estado. 

Longas horas me afastavam do cheirinho de menino suado com vontade de relatar todo o seu dia. Término do turno. Passar na casa da minha mãe para pegar os filhos — Pedro, de seis anos, e Renan, de 13. O pequeno conta, com ar ofegante e voz estridente, o número de figurinhas viradas num único bater de bafo e a comemoração dos amigos que assistiram. O andar satisfeito pelo “Esse é o meu garoto” seguia em direção ao banho. Tem coisas que a gente quer exibir para a mãe, mesmo! É pelo reconhecimento dela que o olhar busca e o peito estufa de satisfação. Meu olhar acompanhava aquele projeto de homem com cuequinha branca e andar firme. A notificação no celular me chamava de volta à realidade — você tem um boleto que vence amanhã. Hum! Um boleto que vence? Com o ordenado apertado, as vozes da minha cabeça perguntavam: qual conta vou atrasar esse mês? E o boleto é quem vence?! O carro! Acho que vou vender o carro. Não posso. Não dou conta de dobrar período de ônibus. 

Saí um pouco mais cedo. Dá para passar na casa dos meus pais e tomar um cafezinho antes do turno da noite. Aviso à van escolar que vou buscar o pequeno. O laranja da tardezinha que caía aquecia por dentro. Ele entra no carro. Beijinhos e o pedido encabulado: “Posso ir na frente?” No caminho para a casa da minha mãe, parei rapidamente para comprar um lanche. No estacionamento, disse ao pequeno que passasse para o banco da frente. Afivelei o cinto. Olhava-o de soslaio e sentia reverberar a alegria ao se ver no lugar que ocupava. Havia uma cumplicidade; partilhávamos um pequeno segredo. Ele sabia que seria por alguns minutos. Confiava em mim. Nem perguntou se podia dar problema. Apenas aceitou aquele pacto silencioso entre nós. Era certo que voltaria para o banco de trás, mas, enquanto estivesse ali, era o dono da vista perfeita! O carro virou um Boing e estávamos na cabine do piloto. Sorri com os olhos marejados. Ele não viu o que aconteceu antes de buscá-lo na escola, antes do sorriso. Daquele banco, ele via o mundo todo. Eu, do meu lugar, via boletos, cansaço e responsabilidades. Ainda assim, por alguns minutos, a vista dele foi a única que importou. 

Autora: Angelita Silva

Revisora: Micaela Queiroz Redondo

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