Esta carta é dedicada àquelas que, antes de muitos outros atributos, são mulheres. Aquelas que, em um belo dia, nasceram mães. Quero me dirigir às guerreiras, obstinadas, resilientes, resistentes pessoas. Elas não precisavam ser nada disso, mas o tal instinto materno as transforma em algo que elas nunca imaginaram ser. Nenhuma mulher é a mesma depois de uma gravidez, mesmo quando precocemente interrompida.
Normalmente, no dia de hoje, costuma-se parabenizá-las pela maternidade. Então explodem mensagens para homenageá-las. Esse dia foi idealizado por um comerciante, cujo interesse era impulsionar as suas vendas. Ele, certamente, tinha uma mãe e poderia ser pai, tendo, então, proximidade com a maternidade. No entanto, sendo homem, poderia, de fato, compreender a dimensão do que isso significa?
Primeiro, é importante pontuar que a maternidade é plural. Cada mulher vive de um jeito. Essa vivência não depende apenas de fatores físicos, mas principalmente sociais que podem definir se o exercício materno será mais ou menos penoso. Tais palavras podem chocar alguns desavisados que se dizem defensores da vida e que ainda veem as mães como divindades capazes de suportar tudo. Esquecem, porém, que não se trata de uma figura divina, mas, sim, de uma criatura humana, passível de sentir dor, medo, revolta e que, justamente por isso, tem todo o direito de reclamar, questionar e demonstrar insatisfação. Não se trata do sentimento que nutre pelo filho, mas da sobrecarga que vem com a chegada dele. Em dias como esse, para além de homenagens romantizadas, muito mais útil seria se problemáticas enfrentadas pelas mães fossem pensadas coletivamente e solucionadas. Enquanto isso não acontece, gostaria de parabenizar essas sobreviventes, em especial aquelas que vivem de forma mais intensa as desventuras maternais — sobrecarga de trabalho, cansaço extremo, autocobrança, problemas físicos e mentais, preconceito, dificuldades financeiras.
As mulheres socialmente vulneráveis são as que mais sofrem com o exercício da maternidade. Tudo começa com a precarização do acompanhamento gestacional, seguido da violência obstétrica — antes, durante e após o parto. Muitas enfrentam uma depressão pós-parto que não é tratada, pois saúde mental custa caro, e esses são apenas alguns tópicos do leque enorme de dificuldades.
Então, a maternidade não tem beleza?
Olhar para aquele rostinho, aquelas mãozinhas, sentir aquele cheirinho, tocar naquela pessoinha esperada durante as quarenta semanas em que aquele ser foi se desenvolvendo dentro do seu corpo, acordar e ver aquele sorriso que mais parece um sol ou um céu estrelado, sentir-se o mundo de alguém tão frágil e pequenino. Como não amar uma parte de você?
Nem todas as mulheres, porém, conseguem sentir isso, pois nem sempre a maternidade chega de uma forma ideal. De repente, a criança pode nascer com algum problema grave, o parto pode se tornar difícil, o bebê ou a mãe podem estar em risco. Rapidamente, tudo o que era esperado se torna um grande pesadelo. A partir desse ponto, todo aquele suporte que pode suavizar a maternidade será crucial. Se existe, é muito bom. Não retira o sofrimento, mas suaviza. Se a mãe não tem nenhum suporte, o pesadelo será uma constante que exigirá um esforço sobre-humano.
Mães atípicas sofrem com essa realidade. É muito mais difícil contar com uma rede de apoio disposta a dar suporte quando a criança é neurodivergente. Esse tipo de maternidade pode ser extremamente solitário e doloroso.
A romantização da maternidade é um ato cruel com a mulher. É naturalizar a invisibilidade dela, suas dores, seus múltiplos obstáculos, tudo o que ela deixa para trás quando se torna mãe, como a liberdade — crucial para a oxigenação de um indivíduo. Não poder falar sobre as dificuldades do exercício da maternidade é uma violência. Afirmar isso não significa expressar um sentimento de ódio em relação ao filho, significa externalizar a revolta em relação à sociedade que obriga a mulher a se encaixar em padrões desleais.
As mulheres, ao longo do tempo, conquistaram muitos espaços e direitos, porém a sociedade não procurou se adequar à realidade feminina. Elas precisaram se adequar. É por esse motivo que a maternidade atípica se torna tão difícil, pois a mãe de uma criança neurodivergente se depara com uma dupla inadequação: a dela e a do seu filho.
Portanto, mães, não se culpem, não se cobrem e não aceitem migalhas ou “mensagenzinhas” produzidas por uma máquina. Observem como são tratadas no cotidiano, nos lares, nas ruas, em ambientes sociais. Se vocês são tão importantes e amadas como querem que acreditem, então busquem a prova disso. Se o exercício da maternidade é tão respeitado, então exijam evidências. Ignorem a hipocrisia daqueles que se sentem no direito de julgá-las, mas que não fazem nada pela vida.
Flores e mensagens emocionantes não solucionam problemas. Ações verdadeiras e resolutivas, sim. Cuidado real, amparo, suporte social, emocional, financeiro e trabalhista. Isso, sim. Pensar socialmente em ações que se adequem à realidade materna é um ótimo presente. Ter pais ativos quanto ao cuidado com os filhos e com as atividades domésticas, sim, é reconhecer que as mães não são as únicas responsáveis por essas atribuições.
Assim, queridas mães, desejo que tenhamos dias com presentes significativos. Espero que a maternidade seja respeitada, sem falsos floreios. Somos seres sociais, cidadãs com necessidades gritantes. Não queremos ser vistas como heroínas ou pessoas com capacidades sobrenaturais. Não queremos lutar como leoas diariamente. Queremos, sim, qualidade de vida e acesso adequado à nossa realidade. Queremos a segurança de que os nossos filhos terão o suporte necessário para podermos trabalhar, estudar e nos divertir sem culpa e sem cobranças desleais. Estou me incluindo nessa conclusão, porque também sou mãe — mãe atípica. Por isso, posso dizer que tenho autoridade e lugar de fala, e se as minhas palavras puderem contribuir para dias melhores e mais generosos conosco, acredito que não terá sido em vão me sentar para escrevê-las enquanto cuidava do meu filho com neurodivergência e do meu bebê com febre.
Autora: Jeane Gomes
Revisão: Kátia Dias





