Por um texto materno

A mother and daughter enjoying time together outdoors, depicting love and care.

Faltam poucos dias para terminar o prazo de recebimento dos textos no concurso e eu ainda não escrevi o meu. Mês de férias escolares, criança em casa o dia todo, e é nessas horas que a gente sente falta das manhãs em que o tempo parece ser todinho nosso… Nosso? Quanta romantização ainda me resta para acreditar nisso? Uma vez mãe, e o seu tempo não lhe pertence mais, é um fato. Romantização, esse tema dá um caldo bom, mas em outro momento. Agora quero falar de uma outra questão que me atravessa na maternidade.  

As letras “L” e “O” do meu teclado estão com defeito, e é impossível não notar esse incômodo quando escrevo. Ou digito tudo e volto corrigindo depois, ou dou uma quase martelada nessas teclas a cada vez que preciso delas. Não tem opção, de todo jeito sou interrompida no fluxo da escrita. Entre retornar à leitura, corrigindo a cada parágrafo, ou dividir minha concentração no texto com a digitação mais forte nas letras “L” e “O”, o que escrevo está entrelaçado por dificuldades. Mas é apenas um teclado, que com certeza interferiu neste texto, para o mal ou para o bem, afinal, me deu enredo. Porém, existem outras mães por aí com vivências também incríveis para compartilhar, mas sem acesso a um computador, reflexo da injustiça social. Sim, a noção de falta ou dificuldade, assim como a forma com que cada pessoa realiza seu enfrentamento, é relativa e depende de muitos determinantes. 

Sabemos que as maternidades são vivenciadas de maneiras distintas, e o que quero trazer aqui hoje é uma característica em comum desse nosso texto, que vou chamar de materno. Um texto que não é apenas escrito com letras do alfabeto, mas, para além disso, é um registro das nossas escolhas, afetos, imagens e gestos. Uma presença que talvez nunca escrevamos literalmente, de tão profunda e complexa, mas que se inscreve em nossa identidade a cada dia; e com muito esforço. Nenhuma de nós, mães de carne, osso e subjetividade, possui todos os recursos para maternar uma criança, esse ser em desenvolvimento que nos coloca de frente com a permanência da mudança, com a imprevisibilidade eterna. Acredito que, por mais diversas que sejam as possibilidades de vivências da maternidade, em qualquer dos cenários, nos cabe primeiramente aceitar a necessidade de nos desenvolvermos com nossas crianças; por elas e por nós. E, quando conseguimos fazer isso, ajudamos muito a nossa saúde mental.

Mesmo sem o teclado ideal, contrariando a realidade concreta, explícita na falta de recursos, nós encontramos uma forma de escrever o nosso melhor texto materno, e, nele, várias vozes se interconectam. As que carregamos da nossa infância, das nossas dores, das nossas vitórias e dos nossos fracassos. As vozes em construção e, em resposta, das nossas crianças. As vozes das mulheres que vieram antes de nós e nos fortalecem, da sociedade que insiste em nos calar quando o que dizemos é incômodo — ou em falar por nós quando lhe convém. As vozes de quem ficou, e nos escuta mais do que fala, e de quem partiu, deixando um silêncio ensurdecedor. Todas elas nos ajudam a construir nosso texto, a escrever nossas vivências, e nos convidam a olhar em muitas direções. Para escolher quais delas escutar, precisamos saber aonde queremos chegar.

Inusitada a forma como o “L” e o “O” me trouxeram até aqui, e, lendo com atenção, percebo que, ao falar de letras, estou mesmo é me dando conta de um letramento que a maternidade nos oferece sobre a vida. Letramento na arte de cuidar do outro, mas também de si, de escutar as vozes dos outros, mas também as nossas. Não é nada fácil tomar decisões com tanto barulho interno, ainda mais para uma mãe, que precisa decidir tanta coisa. Nosso trabalho emocional é intenso, e é necessário que estejamos atentas a isso, nos acolhendo e buscando alternativas de autocuidado. 

A escrita para mim sempre foi um refúgio a esse falatório todo, mas, com a maternidade, ela passou a ocupar mais um espaço na minha vida. Como um megafone, escrever se tornou também um instrumento de ampliação da minha voz. É assim que percebo esse nosso longo texto materno, uma interconexão de vozes que conversam entre si e produzem um canto alto, plural e solidário. Um canto coral fruto desse intercâmbio entre o individual e o social, colaborando na construção de uma sociedade em que o cuidado esteja presente e seja compartilhado; pois, quando escrevemos sobre nossas vivências, estamos juntas e em potencial de transformação. Nos autorizamos a participar dessa grande conversa de vozes autônomas e, numa diversidade de letras, criamos narrativas que enfim refletem as nossas realidades.

Autora: Maria Madalena Rosa de Magalhães Bernardes – @madamagalhaes_2025

Revisora: Yhasmin Viriato

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