Uma noite dessas, sonhei que estava perto do mar e de outras pessoas. Algo cotidiano, não fosse um detalhe: cada um tinha uma expectativa particular e muito, muito curiosa.
Alguns queriam que as ondas do mar chegassem aos seus pés, mas não molhassem suas roupas. Outros, que o mar estivesse lá longe, apenas para ser admirado pela janela, como um símbolo do status de viver perto dele. Outros queriam nadar, mergulhar…
Quanto a mim, lembro da sensação permanente do sonho: tomara que esse mar não ENTRE pela janela e pela porta do meu apartamento e leve tudo que estiver pelo caminho. Amém!
Ali eu entendi que o puerpério não acabou com quarenta e cinco, sessenta, noventa dias. Ainda nem sei o dia em que ele acabará. Cá escrevo do “auge” dos quase nove meses da minha primeira bebê, que já tem dois dentinhos lindos, já come feijão, angu, macarrão, peixinho, legumes e verduras; e até já teve sua primeira virose. Socorro!
E eu sigo pedindo, quase sempre inutilmente, que o mar respeite a minha janela e fique lá fora. Prazer, meu nome é Bruna e preciso contar para vocês: A tentativa mais inútil que faço, diariamente, é em manter as coisas em ordem! (Risos nervosos).
O que vivi e vivo é tão único que só mesmo a escrita me alivia o peito, quando a casa “dorme”, altas horas da noite, e consigo ouvir e acolher e organizar (Oi? Vai, escreve “tentar organizar”) meus pensamentos e sentimentos.
Sim, eu senti amor imediato por aquela “bolinha” linda que saiu de dentro de mim. Morria de medo de não ser assim, mas foi! Queria que o mundo parasse para sentir e viver esse amor, mas não é assim que a banda toca, né, manas!
A ausência de rede de apoio familiar dói. Machuca. Exige um fôlego extra para nadar nesse mar desconhecido. E é tão engraçado conversar com quem tem rede de apoio familiar.
“Ah, minha sogra fala muito quando está lá em casa me ajudando“. “Ah, minha mãe disse que não vai poder cuidar do meu filho HOJE“. “Ah, minha sogra fez uma comida diferente do que pedi, que coisa“.
(O. Mar. Bate. No. Pé. Mas. Ela. Não. Quer. Se. Molhar.
E. Eu. Estou. Quase. Me. Afogando. Aqui. Sozinha.)
E o que eu respondo? Eu nunca respondi. Pelo menos não em um diálogo com o meu interlocutor, graças à minha mania de ser gentil e empática. Mas o meu coração e a minha mente sempre trazem mais dúvidas do que respostas, vocês podem imaginar.
Geralmente, penso na minha sogra, que vive em um lar de idosos, com uma doença degenerativa, e de quem, infelizmente, nunca pude ouvir um falatório ou provar da comida, fosse boa ou estranha. Penso sempre na minha mãe, com suas (muitas) questões emocionais, de um existir carregado de dores não vistas, que a impedem de estar conosco e vivenciar a experiência de ser avó, como eu desejava.
Se penso demais e pisco os olhos, o mar já arrebentou a porta de casa: Volta para a realidade, você não tem para quem ligar e pedir socorro, mulher! Pega um balde e seca essa molhação, sua bebê está com fome!
Aliás, precisamos falar urgentemente sobre licença-paternidade e conceitos de parentalidade. Quem disse que cinco dias dão para alguma coisa? E vinte? Também não dão!
E quem disse que está tudo bem uma mãe recém-operada, em uma cirurgia de emergência que lhe abriu sete camadas de carne e setenta e sete de traumas, ouvir do chefe do marido que “é só ela dar banho de banheira no neném e não tem problema o pai fazer um curso depois do trabalho e chegar após 22 horas em casa“.
Quem disse que pai é ajuda, minha gente? Sofrendo todas essas violências, meu desejo era de que o mar entrasse no trabalho do meu marido, no curso, na casa do chefe, jogando tudo para o alto e ensinando que a natureza não aceita desaforo, não!
Mas o pai precisa trabalhar. Vamos apoiar! Recolhe essa água toda e liga a máquina de lavar. O homem precisa de roupa limpa para a semana. Afinal de contas, vocês já viram o pai largar o trabalho para cuidar do filho? E, se chegar amarrotado por lá, está bem arriscado a culpa ser da mulher que “só pode ser uma relaxada, afinal está de licença, mas não conseguiu dar conta dessas roupas“.
Não, não estamos em 1940, mas em 2026. Sim, algumas “coisinhas” a gente ainda precisa GRITAR bastante para mudar. Sim, mulher e mãe parece ser penalizada até quando estudou e trabalhou a vida toda para conquistar o direito a passar um tempo em casa CUIDANDO DO FILHO.
(Invade. Logo. Tudo. Sr. Mar! Grata!)
Pronto. São cinco horas da madrugada e está clareando. Já começa tudo de novo. Outro dia. Uma sensação de que o tempo está escorrendo pelos dedos, minha filha está crescendo rápido demais e eu ainda nem entendi o que aconteceu aqui. A única coisa que entendo, por ora, é que aquele amor que senti no primeiro minuto virou um negócio gigantesco e só cresce. Sim, é clichê, mas está rolando.
Talvez, um dia, eu não tema mais que as ondas invadam as janelas. Talvez eu até curta ter a areia que o mar traz aqui no pé do sofá.
A única certeza que tenho é que a maternidade não me permitirá apenas apreciar as ondas do mar.
Fecha o peito, seca as águas, guarda o papel e o lápis que o sol já raiou!
Autora: Bruna Carla Carvalho – @bruna_carla_carvalho
Revisora: Yhasmin Viriato





