Reencontro

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Reconheço-me como alguém de energia vibrante, daquelas pessoas que manifestam brilho nos olhos ao falar, um sorriso largo e entusiasmo pela vida. Como educadora infantil, guardei e guardo meus repertórios favoritos de contos e narrativas brincantes dos mais cativantes, os quais coleciono no coração e na memória para partilhar em momentos especiais.

O nascimento de um filho acendeu em mim a expectativa de apresentar as dores e delícias desse mundão afora a quem acabara de ser apresentado a esta forma de vida. Entre colos e brincadeiras, ele crescia sob olhares de pura poesia, com pés descalços subindo em árvores sob a luz do sol. Benjamin vivia entre as experiências mais lindas de tudo o que se acreditava ser extraordinário para uma criança viver. 

O tempo foi passando. Não foi de repente. Aos poucos, os olhares e barulhinhos espontâneos de criança deram espaço para a manifestação de comportamentos incomuns, como a preferência pelo isolamento e pela quietude, o que gerava em mim um olhar de estranhamento ao ver meu menino indiferente aos convites para se relacionar com o mundo. Ao invés de sorrisos, haviam choros persistentes diante de qualquer mudança inesperada na rotina. Ele não me olhava mais. Havia dúvida sobre o que fazer, mas a certeza de que algo diferente acontecia.

Em busca de respostas, veio o diagnóstico: Transtorno do Espectro Autista. Questionei-me internamente: “Para esses médicos, tudo é diagnóstico!”; “Deixem as crianças em paz!”; “Ele não tem todas as características descritas na internet”; “Se fosse autismo, eu saberia!”. Nas dúvidas e certezas, mergulhei cada vez mais no assunto e, sim, finalmente demos as mãos: eu, Benjamin e o autismo.

O silêncio prevalecia em nossas rotinas, regadas a boas doses de choros, poucas palavras e algumas expressões desconexas. As brincadeiras deram lugar a interesses específicos. Não havia nada do que eu havia projetado naquela maternidade. Não havia contos, tampouco histórias cantadas. Não havia brilho no olhar. Nem meu, nem dele. Mesmo em tentativas de levantar o astral da rotina e resgatar a energia vibrante, cantarolando músicas das quais eu gostava ou tentando histórias antes de dormir, gritos soavam, dizendo-me: “Pareee!”. Fui, aos poucos, sendo calada pelo que eu não compreendia: a complexidade do autismo. Um nó na garganta surgia cada vez que eu desejava cantar minha música favorita. A rotina tornava-se cada vez mais estruturada, milimetricamente calculada e sem imprevistos; caso contrário, o transtorno reinava com suas faces da rigidez.

Não me reconheci mais nessa rotina. Sem medo de ser julgada, passei a amar meu filho e não o autismo. Por vezes, aos prantos, questionei a Deus: “Por que me deu essa missão? Por que eu? Uma educadora com tantas expectativas e experiências para o filho, tantos potenciais criativos, que procura respeitar as infâncias de todas as formas possíveis, podendo viver o extraordinário com qualquer criança… porque o autismo?”. Acompanhei as terapias, mesmo diante de questionamentos. Dia após dia, por meses e anos. Eu estava lá quando meu filho voltou a brincar. Vibrei quando ele aprendeu a falar palavra por palavra, depois frases cada vez mais contextualizadas. Celebramos juntos!

Vi o olhar de diferença e pena das pessoas; a dor é de atravessar a alma. Na escola ouvi: “Esse lugar não é especializado em autismo, não podemos fazer nada. Ele não precisa de adaptações”. Outro dia, ouvi de desconhecidos na rua que me olharam de cima a baixo: “Deus me livre de ter um filho autista”. Certa vez, de parentes: “Você precisa bater no seu filho, ele está sendo usado pelas forças do mal” ou “Você tem essa vida porque está pagando pelas consequências de não ir à igreja como seus pais te ensinaram”. Lembro-me e escrevo com um coração de carne e osso, tornando tudo tão meramente humano.

Outro dia, voltando de uma viagem curta de carro, estávamos no banco de trás e Ben olhava a paisagem pela janela. O céu anunciava a noite e a lua já dava o ar de sua graça. Benjamin disse: “Mamãe, olha lá a lua! Eu estava lá em cima voando com você! Então você quis morar aqui embaixo. Fiquei triste e pedi para vir aqui morar contigo”. De repente, meus olhos marejaram. Escorreu uma lágrima pelo canto do meu olho e ficamos abraçados. Naquele instante, soube que nos reencontramos. Isso não nos garante todas as respostas. Não retira os desafios. Não torna o caminho previsível ou justo. Há dias em que avançamos em pequenos passos, em outros parece que voltamos para trás, noutros encontramos forças para seguir adiante novamente. Sempre juntos.

Autora: Ana Carla Amaral da Silva – @ana_carllla

Revisora: Samantha Viriato

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