Coluna – Existe espaço para uma mulher não gostar de tudo na maternidade?

Caring mother with curly hair and cute infant baby in arms standing in light kitchen with microwave oven at home

Há uma expectativa silenciosa em torno da maternidade: a de que, se uma mulher desejou um filho, ela deveria gostar da experiência de ser mãe. Não apenas amar o filho. Gostar de tudo o que vem junto. Gostar da gestação. Do corpo mudando. Das consultas. Das perguntas. Da barriga sendo tocada. Do parto. Da amamentação. Das noites interrompidas. Da dependência constante. Da nova rotina. Das mudanças no relacionamento.

Talvez, uma das partes mais difíceis da maternidade seja justamente descobrir que é possível amar profundamente um filho e, ainda assim, não gostar de algumas partes da experiência de maternar. Parece uma afirmação simples. Mas, para muitas mulheres, não é. Porque ainda existe uma associação muito forte entre desconforto e falta de amor. Como se dizer “está difícil” significasse dizer “eu não queria meu filho”. Como se sentir falta da vida anterior significasse arrependimento. Como se desejar algumas horas de silêncio colocasse em dúvida o vínculo com o bebê.

A maternidade é uma experiência atravessada por afetos diferentes, inclusive afetos que parecem contraditórios. Uma mulher pode sentir amor e irritação. Pode sentir gratidão e exaustão. Pode estar feliz com a chegada do filho e sentir saudade de quem era antes. Pode desejar estar perto do bebê e, em alguns momentos, querer ficar sozinha. Pode reconhecer que viveria tudo novamente e, ao mesmo tempo, admitir que houve momentos em que não gostou de estar vivendo aquilo.

Esse movimento tem nome: ambivalência. E a ambivalência não é uma falha da maternidade. É parte da experiência humana. O problema começa quando não existe espaço para falar sobre ela. Desde a gestação, muitas mulheres aprendem rapidamente quais sentimentos são socialmente aceitos. Quando dizem que estão felizes, encontram acolhimento. Quando dizem que estão com medo, frequentemente escutam: “vai dar tudo certo”. Quando dizem que estão cansadas: “aproveita, passa rápido”. Quando dizem que sentem falta da vida anterior: “mas você quis tanto esse bebê”. Quando expressam irritação ou desejo de ficar sozinhas, podem ser confrontadas com outra pergunta, ainda mais dura: “mas você não está feliz?”

Pouco a pouco, a mulher percebe que algumas respostas são mais fáceis de oferecer. “Está tudo bem.” “Estou me adaptando.” “É cansativo, mas vale a pena.” E muitas vezes vale mesmo. Mas o fato de algo valer a pena não elimina o custo emocional que pode existir naquele processo. Talvez precisemos separar duas coisas que frequentemente aparecem misturadas: o amor pelo filho e a experiência da maternidade.

Uma mulher pode amar seu bebê e não gostar de acordar várias vezes durante a noite. Pode amar seu filho e não gostar de amamentar. Pode amar aquela criança e não gostar da sensação de estar disponível o tempo inteiro. Pode amar seu filho e sentir falta do trabalho. Pode amar ser mãe e, ainda assim, querer recuperar espaços em que não seja chamada apenas de mãe.

Nada disso deveria precisar de justificativa. Quando transformamos a maternidade em uma experiência que precisa ser integralmente apreciada, criamos um modelo impossível de sustentar. E o preço desse modelo costuma aparecer em forma de culpa. A mulher começa a se perguntar por que não está vivendo aquilo da maneira que imaginava. Por que algumas partes da maternidade parecem muito mais difíceis do que disseram que seriam. E, em vez de perceber que sentimentos diferentes podem coexistir, ela pode concluir que existe alguma coisa errada com ela.

É nesse ponto que a romantização deixa de ser apenas um discurso ingênuo sobre maternidade e passa a produzir silêncio. Porque mulheres que acreditam que deveriam estar felizes o tempo inteiro podem demorar mais para dizer que não estão bem. Mulheres que acreditam que boas mães não sentem raiva podem esconder a própria irritação. Mulheres que acreditam que amar é suficiente podem se envergonhar quando percebem que também precisam de descanso, espaço, ajuda e cuidado.

Talvez a pergunta não devesse ser: “Você está gostando de ser mãe?” Talvez seja uma pergunta grande demais para uma experiência tão complexa. Podemos perguntar: O que tem sido bom? O que tem sido difícil? Do que você sente falta? O que você não esperava encontrar nessa maternidade? O que está pesado demais? De que tipo de ajuda você precisa agora? Perguntas como essas não exigem que a mulher escolha entre amar ou sofrer. Elas permitem que ela conte a experiência inteira. E talvez esse seja um dos maiores cuidados que podemos oferecer a uma mãe: não obrigá-la a apresentar uma versão coerente, bonita e agradecida da própria maternidade.

Alguns dias podem ser bons. Outros, não.Algumas fases podem ser profundamente prazerosas. Outras podem ser cansativas, solitárias ou frustrantes. Isso não diminui o vínculo. Talvez uma maternidade possível comece exatamente aí: quando uma mulher percebe que não precisa gostar de tudo para amar seu filho.E, principalmente, quando encontra espaço para dizer isso sem precisar se defender.

Autor

  • Paula Alves

    Paula Alves é psicóloga de gestantes - CRP04/31469, mãe da Maria Cecília e é especialista em Psicologia Perinatal e da Parentalidade, com mais de 15 anos de experiência. Atua no acompanhamento psicológico de gestantes e mães no pós-parto, além de ser docente em um curso de formação de doulas. Acredita que maternar não deve ser sinônimo de solidão e que falar sobre saúde mental materna é fundamental. No Instagram, compartilha reflexões e conteúdos sobre o tema: [@paula.psiperinatal].

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